Com mesas e cadeiras destruídas por enchentes, restaurante mais antigo do RS deve reabrir só com delivery

Gambrinus funciona há quase 135 anos dentro do Mercado Público de Porto Alegre, que volta a funcionar parcialmente nesta sexta-feira (14/6). Previsão de retomada do salão é só no final do mês As paredes centenárias do restaurante Gambrinus testemunharam uma série de crises nos últimos 15 anos. Além da pandemia e dos desafios econômicos, em 2013, um incêndio de grandes proporções atingiu o Mercado Público de Porto Alegre, onde o estabelecimento funciona. A mais recente foi causada pelas enchentes que tomaram o estado a partir do fim de abril, devastando o local e paralisando as atividades por mais de um mês.
Desde que puderam entrar no restaurante, há cerca de duas semanas, o dono, João Melo, e os 18 funcionários têm atuado em limpeza, restauro e contabilização dos prejuízos. Melo estima que o prejuízo passe de R$ 1 milhão, considerando perdas materiais, dias fechados e outras despesas, mas a conta ainda pode crescer “Perdemos todos os móveis, cadeiras, mesas, balcões. Temos de refazer tudo mais uma vez”, diz.
O Mercado Público volta a funcionar parcialmente nesta sexta-feira (14/6). O Gambrinus inicialmente pretendia voltar a funcionar só com delivery na mesma data, mas algumas limitações de equipamentos impediram o retorno. A previsão de Melo é que comece a funcionar, só com entregas, a partir da semana que vem. O canal, acelerado na pandemia, representava cerca de 5% do faturamento do estabelecimento antes das enchentes.
Melo estuda formas de retomar as atividades do salão do restaurante, enquanto aguarda por uma liberação de crédito. “É questão de tempo até a cozinha pegar o ritmo de novo, alguns pratos nossos levam dias [para ficarem prontos]. Então nos primeiros dias não teremos o cardápio completo, vamos voltar aos poucos”, diz.
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Até o momento, o empreendedor já precisou tomar empréstimos para pagar salários. Uma vaquinha virtual, que continua no ar, ajudou a levantar R$ 10 mil para ajudar três colaboradores que perderam as casas nas enchentes e outros, que também foram afetados, em graus diferentes. De acordo com o empreendedor, assim como na pandemia, o esforço é para manter todos os empregos – alguns funcionários estão na casa há mais de 40 anos.
Fachada do restaurante Gambrinus, no Mercado Público, atingida pelas enchentes em Porto Alegre
Reprodução / Instagram
“Acredito que vamos reabrir no final do mês, mas ainda dependemos de fornecedores, que também foram muito afetados, inclusive os mesas e cadeiras”, diz Melo. Ele tem equalizado as novas dívidas com os empréstimos vindos da pandemia, e está na fila do banco para análise de crédito via Pronampe, anunciado pelo governo para ajudar os negócios gaúchos nessa nova crise.
Fundado em 1889 por uma confraria de alemães, o Gambrinus é o restaurante mais antigo do Rio Grande do Sul e o sexto mais antigo do Brasil ainda em atividade, segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira de Restaurantes (Abrasel), a pedido de PEGN. Aberto 20 anos após a inauguração do próprio Mercado Público, o restaurante foi criado para que os imigrantes alemães confraternizassem e bebessem cerveja. Só depois começou a atender clientes.
Nos anos 1930, o local passou a ser gerido por uma família de italianos. Em 1964, uma família de portugueses, formada pelo avô, pai e tio do dono atual, assumiu o controle. Foi nessa época que o bolinho de bacalhau, sucesso da casa, foi introduzido ao cardápio. Melo representa a segunda geração do novo comando do estabelecimento.
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Pela história na cidade, o Gambrinus tem um forte apelo turístico, mas também recebe muitos consumidores locais, de acordo com o empreendedor. “Muita gente vem almoçar com frequência aqui”, conta. O cardápio tem predominância de frutos do mar, como um linguado ao molho de camarão, mas também há carnes e pratos típicos regionais.
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Hoje, o Gambrinus é um dos 20.811 restaurantes existentes no Rio Grande do Sul. De acordo com a Abrasel, cerca de 53% dos estabelecimentos já operavam com prejuízo em abril, antes das enchentes. Apenas 17% contabilizavam lucro.
Melo ainda estuda como o restaurante deve ressurgir após mais uma crise. Opções de extensão de horário de atendimento estão entre as mais cotadas, como um “pré-almoço”, por exemplo. Ele chegou a cogitar uma mudança de endereço após os danos causados pelas enchentes, mas diz que a história no local o motivou a perseverar. “É muito sinérgica a história entre o Mercado e o Gambrinus. Então, por enquanto, ele continua no mesmo local.”
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