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Vinícolas gaúchas tentam aumentar venda de produtos para compensar baixa no turismo


Apesar de 80% dos turistas serem do próprio estado e de Santa Catarina, aeroporto fechado e sensação de instabilidade geram insegurança no setor O baque do desastre climático que assola o Rio Grande do Sul desde o final de abril não poupou o setor vitivinícola. Apesar de os registros de estragos materiais não serem considerados grandes — segundo o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), 200 famílias produtoras de uva, de um total de 20 mil, foram atingidas, mas não houve registros significativos de perda de bebida em vinícolas —, o faturamento de boa parte das empresas da região depende do enoturismo, que foi seriamente abalado.
“A safra foi finalizada e não haverá falta de produto”, diz Daniel Panizzi, vice-presidente do Consevitis-RS e presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra). Os maiores gargalos, segundo ele, são a retração das vendas e, principalmente, a baixa de turistas na região do Vale dos Vinhedos, que concentra a maior parte da produção do estado e do turismo de vinhos. O mês de maio, embora ainda seja considerado baixa temporada, foi quase nulo em termos de receitas.
“Temos condições de atender o turista, mas os visitantes locais ainda não voltaram e o aeroporto de Porto Alegre está fechado”, fala Panizzi. O setor esperava que, em julho, o movimento já voltaria ao normal no Vale dos Vinhedos. No entanto, como o principal aeroporto do Rio Grande do Sul segue parado por tempo indeterminado, não se sabe ao certo se as perspectivas vão se concretizar. “É uma notícia que traz insegurança, apesar de 80% dos turistas serem do próprio estado ou de Santa Catarina. Há eventos corporativos que não vão acontecer”, afirma.
A ExpoBento, feira multisetorial de compras, e a FenaVinho, setorial da indústria vitivinícola, por exemplo, que normalmente acontecem no final de maio, foram remarcadas, em um primeiro momento, para julho. De acordo com Panizzi, são 250 mil visitantes em dez dias, que impactam diretamente o enoturismo. Segundo dados da entidade, a região tem 550 vinícolas e cooperativas, e recebe mais de 13 milhões de turistas ao ano. A produção de uvas e vinhos representa aproximadamente 2% do PIB gaúcho.
Como forma de tentar driblar as dificuldades, o setor está se unindo na aposta de vender mais produtos, principalmente para fora do estado. A ideia é tentar compensar, ainda que não totalmente, as perdas do mês.
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O Consevitis lançou recentemente um selo especial, para destacar os produtos gaúchos nas prateleiras, e tem aconselhado o uso das hashtags #CompreVinhoGaucho e #AjudeRS para potencializar o alcance de postagens nas redes sociais.
Empreendedores estão se mexendo na mesma direção. A vinícola Monte Chiaro, localizada em Bento Gonçalves, trabalha com uma produção limitada de garrafas, em microlotes. Por isso, sua atuação é focada em experiências, com venda estritamente local. Neste momento, a empresa está iniciando o processo de venda para outras localidades. “Começamos uma consultoria no Sebrae para nos auxiliar nesse processo. A ideia é não depender só do enoturismo”, diz Bruna Dachery, enóloga e uma das sócias do empreendimento. Segundo ela, apesar de os turistas locais serem maiores em quantidade, é o visitante de fora que impacta mais o faturamento. “O tíquete médio é maior”, explica.
Dachery conta que tem participado de reuniões de diagnóstico e planejamento para criar ações de estímulo ao turismo local. “Nosso faturamento é 90% vindo do enoturismo. Temos pensado tudo semana a semana, em conversas com outros produtores de vinho e empreendedores da gastronomia e da hotelaria”, diz.
A Monte Chiaro também tenta estancar as perdas com redução de custos. “A empresa está fechada durante a semana, afastamos os funcionários e reduzimos o período de atendimento”, diz Dachery. Segundo ela, buscar crédito ainda não está na mesa. “Mas é semana a semana. Temos receio de pedir crédito e acontecer algo semelhante ali na frente. Tem muita gente aqui que ainda está endividada da época da pandemia”, diz.
Na Cristofoli, vinícola familiar localizada em Faria Lemos, também no Vale dos Vinhedos, os impactos foram mais severos: dois muros caíram, um deles no restaurante que família tem na propriedade, onde recebe os visitantes para experiências enogastronômicas. “Demos férias coletivas para os funcionários do restaurante e estamos vendo o que fazer. Vamos reabrir nesta semana, por conta do feriado [de Corpus Christi, no dia 30/5], e estamos estudando se faremos comida para delivery para os moradores locais. Mas tudo é paliativo”, diz Bruna Cristofoli, uma das donas da empresa.
Ela conta que, no caso da Cristofoli, os clientes são em sua maioria de fora do Rio Grande do Sul ou da região metropolitana de Porto Alegre. “Estamos focados em despachar as compras. Temos bons clientes que nos procuraram para comprar. Mas só isso não é suficiente. Estamos pagando nossos fornecedores, mas não estamos recebendo de todos que devem”, afirma.
Cristofoli diz que é possível sentir um clima de insegurança, além da consternação generalizada. “As pessoas sentem que é desrespeitoso fazer qualquer tipo de comemoração. Então, quem poderia vir acaba não vindo”, fala. “Mas não tem vinhedo embaixo da água, não vai faltar vinho, e o preço não vai disparar.”
A vinícola também tem trabalhado na venda de garrafas, usando malha rodoviária e envios aéreos via Caxias do Sul. A empresa também está oferecendo descontos, experiências e formando parcerias com a rede hoteleira. Para recuperar a infraestrutura do restaurante, a empreendedora conta que pensou em buscar crédito de uma das linhas anunciadas pelo governo. “Mas o banco não sabe como fazer. Ligamos para o gerente, e ele nem sabia”, diz. “Sentimos que o inverno vai ser duramente impactado.”
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