Uber Mafia: 3 fundadores de startups que vieram da empresa de mobilidade urbana

Ex-funcionários utilizam os aprendizados adquiridos em negócios de alta escalabilidade para criar uma nova geração de startups A evolução do ecossistema de inovação no Brasil tem resultado nas primeiras “máfias” de startups e big techs no país. O nome é uma espécie de apelido engraçadinho para empresas criadas por ex-funcionários de empresas que se destacaram no mercado. No Brasil, uma das companhias de tecnologia que serviu de celeiro para o surgimento de novas startups foi a Uber. Nesta matéria, contamos a história de três empreendedores que passaram pela companhia de mobilidade urbana e decidiram fundar seus próprios negócios.
“Sem dúvida nenhuma é um sinal de maturidade [do ecossistema]. São empresas que formam potenciais novos empreendedores. É um círculo positivo de retroalimentação, um meio de disseminar e expandir o ecossistema como um todo. O investidor vê com bons olhos porque são pessoas que já passaram por desafios, o que aumenta as chances de sucesso”, pontua Cassio Spina, investidor, fundador da Anjos do Brasil e da Alya Ventures.
No ecossistema de startups as máfias não têm nenhuma relação com organizações criminosas. No dicionário da comunidade de inovação, elas são formadas por empreendedores que decidem aplicar o que aprenderam em suas jornadas profissionais em negócios de alta escalabilidade fundando startups. Lá fora, isso é comum e acontece há gerações: Elon Musk (Tesla, SpaceX) e Reid Hoffman (LinkedIn), por exemplo, são da máfia do PayPal.
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A Uber no Brasil ajudou no estalo empreendedor para Patrícia Carvalho, fundadora da lawtech Forum Hub, que atraiu R$ 1,2 milhão de investidores-anjo em 2023; Ian Kraskoff, fundador da Cloud Humans, investida de Y Combinator e Canary; e Caio Almeida, fundador da Estoca, logtech para e-commerce, que levantou US$ 6,1 milhões em 2023 em rodada Série A liderada pela Astella.
Apesar das trajetórias distintas dentro da empresa, os integrantes da máfia do Uber têm algo em comum: todos acreditam que a experiência com autonomia para testar, errar e aprender, foi essencial para a formação como empreendedores.
“Trabalhar em empresas em estágio inicial te dá liberdade de fazer e errar. Você ganha confiança e resiliência para continuar e isso é importante. Uma das coisas que aprendi na Uber é que acertar tudo é uma lenda. Se erra na maioria das vezes, mas se encontra o caminho para chegar ao acerto”, opina Kraskoff.
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Estoca
Caio Almeida, cofundador da Estoca
Acervo pessoal
Formado em engenharia mecânica, Caio Almeida trabalhou por 10 anos na área de construção. Cofundador da startup Alugalogo, ele integrou a primeira turma de residentes do Google Campus no Brasil. Depois de vender a startup, ele não quis voltar para o mercado de construção e buscou uma empresa de tecnologia em crescimento para aprender. Em julho de 2018, entrou para a equipe do Uber Eats, liderando o time de parcerias e trabalhando de perto com os restaurantes.
Ele relembra que as demandas eram urgentes, mas bem feitas, e que as decisões eram tomadas em cima de dados. Almeida destaca também que a equipe era muito talentosa. Foi no dia a dia da operação do Uber Eats que ele teve a ideia da Estoca. “Eu entendi que a entrega rápida era a variável em comum entre os restaurantes que mais vendiam. Eu sabia que empreenderia de novo e vi que poderia replicar a mesma dinâmica em outro mercado”, comenta.
Ele deixou a Uber em janeiro de 2020 para fundar a logtech ao lado de um sócio que conheceu na empresa. A startup desenvolveu uma tecnologia própria que atende empresas que operam com e-commerce desde a cotação de frete até a entrega para os consumidores. Entre os clientes estão Nude, Básico e Ollie – ao todo, a Estoca atende cerca de 90 empresas.
A Estoca foi uma das duas brasileiras a integrar a lista da CB Insights sobre startups para ficar de olho em 2024. Segundo o fundador, a conquista trouxe mais exposição para marcas maiores que estão se tornando clientes. A startup estima encerrar 2024 crescendo três vezes em comparação com o ano anterior. Além disso, Almeida conta que a empresa deve chegar ao ponto de equilíbrio entre junho e agosto deste ano.
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Cloud Humans
Ian Kraskoff (direita), durante o período no Uber Eats
Acervo pessoal
Ian Kraskoff teve experiência empreendendora dentro de uma empresa quando passou pela unidade de pagamentos da Brink’s, de carros-fortes para transporte de dinheiro e peças valiosas. Ele decidiu entrar para a Uber, em 2016, porque queria aprender mais sobre empreendedorismo. “A minha entrada foi proposital porque eu queria empreender e entendia pouco do mercado de tecnologia”, relembra.
Ele estava no time fundador da operação da Uber Eats no país e observou o crescimento da empresa, com dezenas de novos funcionários iniciando semanalmente. Kraskoff permaneceu na Uber por dois anos, onde passou por várias posições: criou o time de vendas do zero, estruturou a parte de onboarding, cuidou do relacionamento com clientes.
Com a mentalidade de aprender ainda mais sobre uma empresa de tecnologia, ele foi trabalhar na Loft. A ideia era fazer um bom trabalho para, quem sabe, no futuro garantir um cheque de Florian Hagenbuch, cofundador do hoje unicórnio. E deu certo: a Canary, gestora criada por ele, é investidora da startup, além da Y Combinator, da Grão e de cerca de 30 anjos.
A Cloud Humans começou a ser formulada em maio de 2020, com sócios que vieram de Uber, Rappi e Creditas. A startup oferece um chatbot que utiliza inteligência artificial para dar suporte aos clientes em canais escritos. Entre as empresas que usam o serviço, estão CRMBonus, Nuvemshop e Insider Store.
O cofundador conta que a startup prevê dobrar o faturamento neste ano. “Devemos chegar ao breakeven em julho, no mais tardar em agosto. Para nós, é excelente estar nessa situação porque o capital de risco está valorizando mais essas empresas”, pontua Kraskoff.
Saiba mais
Forum Hub
Patrícia Carvalho (esquerda) e colegas do Uber
Acervo pessoal
Patricia Carvalho nunca tinha utilizado o serviço da Uber quando entrou para a empresa, nem tinha dimensão do tamanho do negócio. O convite chegou pelo LinkedIn e ela se tornou a primeira contratada da Uber no Centro-Oeste, em 2015, para lançar a operação em Brasília, ficando responsável pelo marketing para aquisição de usuários e motoristas para a plataforma.
“A Uber trabalha o empreendedorismo individual. Éramos um time pequeno lançando a operação no Brasil, com total autonomia para resolver os problemas nacionais. Meu pai tinha sido taxista. Eu falei que ia trabalhar no aplicativo que ia disruptar o mercado e ele me disse que eu ficaria desempregada”, relembra, aos risos. Ela trabalhou três anos e meio na Uber. Antes de empreender, teve passagens por CargoX, Revelo e Bitso.
Administradora de formação, ela encontrou a tese para o negócio durante uma viagem frustrada para o México: voo atrasado, mala extraviada e carro alugado indisponível para retirada fizeram com que ela tivesse que acionar um amigo advogado para tirar dúvidas. “Eu sempre entendi que o mundo do direito é claro para o advogado, mas pro civil não. Eu sempre tive isso comigo, mas não transformava em jornada”, conta.
Depois de estudar e entender o tamanho do mercado, ela lançou o MVP da Forum Hub em 2022, com investimento inicial de R$ 200 mil. Na plataforma, o cidadão pode tirar dúvidas de forma gratuita sobre direito do consumidor, trabalhista e de família com advogados especialistas. No momento, 100 profissionais estão ativos e 35 mil pessoas já foram atendidas.
O cliente só paga se houver possibilidade de evolução para um caso judicial: para que a startup faça o encaminhamento para a justiça, é preciso pagar uma taxa de R$ 290. O processo pode ser acompanhado por um aplicativo. Se a causa for ganha, 30% do valor recebido deve ser direcionado à startup ao fim do processo.
Com faturamento previsto de R$ 1,5 milhão em 2024, a Forum Hub está fechando uma rodada de captação bridge com investidores-anjo e empreendedores. O capital será investido para aprimorar a tecnologia e atender a demanda reprimida de usuários.
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