Trump anuncia hoje ‘tarifas recíprocas’, que podem atingir o Brasil: entenda o que são e o que está em jogo
Tarifas podem ser lineares sobre todos os produtos de um país, o que os torna menos competitivos na maior economia do mundo O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer reformular as principais parcerias comerciais do país com uma nova estratégia que ele chama de “tarifas recíprocas”. O republicano promete anunciar hoje uma nova rodada de impostos de importação sobre produtos de vários países que chegam aos EUA, no que ele tem chamado de “Dia da Libertação”.
A retórica vem da visão de Trump de que seu país sofre tratamento injusto de outros países, que vendem para os EUA (historicamente uma economia liberal com poucas barreiras comerciais) e cobram taxas de produtos americanos em seus mercados para impedir a competição com produtos nacionais.
Trump agora quer praticar o mesmo jogo, dizendo acreditar que essa medida vai atrair para os EUA investimentos produtivos e empregos que migraram para outros países nas últimas décadas.
O protecionismo trumpista mergulhou a economia mundial em um mar de incertezas e tem mobilizado vários países na tentativa de minimizar os danos ou traçar estratégias de retaliação. O Brasil é um deles, apostando em vários caminhos.
O Brasil está na mira da Casa Branca. Anteontem, o etanol brasileiro foi citado em um relatório do governo americano como exemplo de relação comercial injusta com os EUA, já que o similar americano paga taxa mais alta no Brasil que vice-versa. Outras queixas também aparecem no texto.
Segundo a colunista do GLOBO Míriam Leitão, as tarifas dos EUA poderão ser lineares, aplicadas a todos os produtos de um país, e ir de 10% a 25%. Isso pode tornar uma série de produtos brasileiros sem competitividade nos EUA, do suco de laranja aos aviões da Embraer. Sem falar no aço e no alumínio, que já sofreram taxação de 25% e podem agora ter mais uma tarifa.
O que são tarifas recíprocas?
O termo “recíproco”, no contexto do comércio, normalmente se refere a medidas adotadas por ambas as partes para garantir justiça no comércio bilateral. Nos últimos 90 anos, isso geralmente significava a redução de barreiras comerciais.
Nos EUA, a Reciprocal Trade Agreements Act (Lei de Acordos Comerciais Recíprocos), de 1934, marcou o fim de uma era protecionista e permitiu que os EUA e seus parceiros negociassem tarifas mais baixas para seus produtos.
Para Trump, o conceito de “comércio recíproco” surgiu em materiais de campanha on-line de 2023, descrito como uma abordagem de “olho por olho” para corrigir desequilíbrios comerciais, aumentando tarifas dos EUA.
Trump e seus assessores argumentam que as práticas de muitos parceiros comerciais dos EUA favorecem seus próprios exportadores em detrimento das empresas americanas.
Construir uma barreira tarifária em torno da economia dos EUA incentivaria produtores estrangeiros – ou empresas americanas que operam no exterior – a instalar fábricas no país e contratar trabalhadores americanos, revertendo o declínio da classe média, segundo eles. A estratégia também tem outro objetivo recentemente declarado: gerar receita para ajudar a pagar cortes de impostos.
Como funcionariam as tarifas recíprocas?
Os novos impostos sobre importação seriam personalizados para cada parceiro comercial dos EUA, de acordo com um memorando distribuído pela Casa Branca.
O objetivo é compensar não apenas as tarifas aplicadas pelos parceiros sobre produtos americanos, mas também outros fatores que prejudicam os fabricantes dos EUA, como subsídios considerados injustos, regulamentações como leis de proteção de dados pessoais, impostos sobre valor agregado (IVA), taxas de câmbio controladas e proteções insuficientes à propriedade intelectual.
Essas chamadas “barreiras não tarifárias” são difíceis de quantificar, criando um grande desafio para o Escritório do Representante Comercial dos EUA e o Departamento de Comércio, que são responsáveis por propor novas tarifas país por país.
O secretário de Comércio, Howard Lutnick, comparou essa tarefa a renegociar acordos comerciais com dezenas de países, algo que normalmente leva anos para ser concluído.
As tarifas recíprocas poderiam ser aplicadas de várias maneiras: sobre produtos específicos, setores inteiros ou como uma tarifa média sobre todas as mercadorias de um determinado país. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou recentemente que cerca de 15 países estão sob análise e que cada um “receberá um número que acreditamos representar suas tarifas”.
Em teoria, os EUA poderiam reduzir tarifas em alguns casos, por questões de reciprocidade. Alguns países poderiam receber isenções ou reduções tarifárias, segundo Trump, embora ele tenha destacado que não quer conceder “tantas” exceções.
Como as tarifas recíprocas diferem do plano original de Trump de tarifas universais?
Durante sua campanha eleitoral, Trump ameaçou impor uma tarifa universal de 20% sobre importações de todos os países, exceto a China. Inicialmente, ele havia prometido tarifas de 60% sobre produtos chineses, mas desde então aplicou taxas de 20%.
A política de tarifas recíprocas seria mais adaptada às particularidades de cada relação comercial. Isso significa que alguns países – especialmente aqueles com poucas barreiras para empresas dos EUA – poderiam ser amplamente isentos.
Quais países podem sair perdendo?
Se os EUA igualarem as tarifas cobradas pelos países com as maiores taxas sobre produtos americanos, as nações de mercados emergentes seriam as mais afetadas. Índia, Argentina e grande parte da África e do Sudeste Asiático estariam entre os mais prejudicados, de acordo com a Bloomberg Economics, que comparou as tarifas dos EUA com as de seus parceiros comerciais.
Mas grande parte do mundo poderia ser afetada, já que o governo Trump considera uma definição mais ampla de “justiça” comercial. Os EUA possuem um déficit comercial global, importando mais do que exportam, algo que Trump considera fundamentalmente injusto.
Ele tem criticado repetidamente os impostos sobre valor agregado aplicados sobre produtos americanos vendidos no exterior, como o IVA mínimo de 15% da União Europeia. O Japão também possui um IVA, chamado imposto sobre consumo.
Segundo um documento do Federal Register do Escritório do Representante Comercial dos EUA, a administração Trump está “particularmente interessada” em países com os maiores superávits comerciais em relação aos EUA.
A lista inclui 21 economias responsáveis por 88% do comércio de bens dos EUA: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, União Europeia, Índia, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Malásia, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Suíça, Taiwan, Tailândia, Turquia, Reino Unido e Vietnã.