Transparência, cortes de gastos e demonstração de valor: chocolate caro faz negócios buscarem soluções antes da Páscoa
O cacau, principal matéria-prima do chocolate, acumulou alta de 150% na bolsa de Nova York no ano passado O chocolate está salgado. O cacau, a principal matéria-prima do doce, acumulou alta de 150% na bolsa de Nova York no ano passado, segundo o Valor Data. Com o aumento, os preços do ingrediente em barra e de bombons no Brasil acumularam inflação de 11,99% nos 12 meses encerrados em dezembro de 2024, de acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
A alta, que já pôde ser sentida no ano passado, tem feito empreendedores que produzem chocolate e tiveram adotar estratégias de negócios diferentes para faturar na Páscoa. “É um exercício de estica e puxa porque não existe uma solução fácil para um problema complexo. A Costa do Marfim, na África, é responsável por cerca de 45% da distribuição de toda a amêndoa para produção de chocolate do mundo, e está impactada pela crise climática. É uma questão de oferta e demanda em que o preço sobe”, resume Renata Cruz, fundadora da Foodness, consultoria de negócios para o mercado de A&B.
Segundo ela, é fundamental que o empreendedor seja estratégico para criar itens que tenham, ao mesmo tempo, alto poder de venda e custo mais baixo. “Durante a criação do cardápio dos produtos, ele já deve considerar a ficha técnica — ferramenta que usamos para criar a receita e o preço de cada ingrediente. Parece muito óbvio, mas poucas pessoas fazem isso no segmento de alimentação e bebida. Se a gente usar só a criatividade na construção, o custo fica impraticável.”
Ainda assim, ela diz que é muito difícil escapar de um repasse de valores. Por isso, a transparência é a palavra-chave. “As redes sociais são feitas para se comunicar e criar conexão com os clientes. Estamos falando de uma questão mundial, não são três ou quatro fornecedores enfrentrando problemas. É importante falar que o preço do chocolate está sofrendo um aumento muito grande, para que os clientes tenham essa consciência”, diz Cruz.
A estratégia tem sido utilizada por Julia Larini, fundadora da Doces Montiê, que opera em São José dos Pinhais, no interior do Paraná. “Muitas vezes as pessoas não entendem por que estamos aumentando o preço. Então, fui às redes sociais explicar o que está acontecendo. Nós confeiteiros sentimos muito, mas a culpa não é nossa. Entendo que não tenho a obrigação de explicar, mas também acredito que conhecimento é sempre bem-vindo”, disse, em conversa com PEGN. “Fiz enquetes e perguntei como estavam as expectativas das pessoas para a Páscoa deste ano. Expliquei que o preço do cacau havia aumentado especialmente por conta de mudanças climáticas.”
Na visão da empreendedora, os conteúdos fizeram com que as pessoas agissem de forma compreensiva. “Meus clientes não estão reclamando do preço e ainda querem comprar”, fala Larini. Ela aumentou o preço de seus produtos em cerca de 25% em relação a Páscoa do ano passado e também precisou fazer algumas alterações no cardápio. “Tirei os sabores que tinham muito chocolate na composição. Fiz uma alteração no brigadeiro cremoso, que parou de ser feito com barra de chocolate para ser produzido com chocolate em pó, que está mais em conta”, diz a empreendedora. “No recheio, eu consigo fazer mudanças, mas a casca de ovo continua com a mesma quantidade de chocolate.”
A expectativa para este ano é a mesma de 2024: vender 350 ovos de Páscoa. “Eu achei que seria muito difícil vendê-los, e que ninguém ia querer comprar nesse valor. Mas até tive que antecipar o lançamento porque os clientes estavam perguntando”, afirma.
Julia Larini, fundadora da Doces Montiê
Divulgação
Cortes na operação
Em empresas maiores, a tendência tem sido realizar cortes em outras partes da operação. “A inovação já faz parte do nosso DNA. Em momentos como este, buscamos aprofundá-la ainda mais. Nos dedicamos intensamente à linha de produção, focando na eficiência da fábrica e na otimização dos processos”, diz Iris Ferraz, gerente de produtos da Cacau Show.
Segundo a executiva, a rede de franquias analisou quais investimentos poderiam ser feitos para aprimorar a operação sem comprometer a matéria-prima, para não abri mão da qualidade. “Analisamos cuidadosamente as embalagens, identificando oportunidades para reduzir custos e melhorar negociações”, afirma.
Companhias grandes estão lançando mão da mesma tática para evitar o repasse ao consumidor —que em muitos casos é também micro ou pequeno empreendedor. Ferrero e Arcor também disseram que precisaram olhar a operação cuidadosamente para diminuir despesas, sem aumentar preços ou diminuir qualidade.
Apesar de a estratégia ser eficaz para grandes indústrias, a fundadora da Foodness lembra que pequenos negócios podem encontrar dificuldades no processo.
“Cortar custos em outras fases da operação é uma medida possível para pequenos negócios, mas não a curto prazo”, diz. “Uso a máxima de que sempre que é possível cortar custos a gente corta. Mas, o que acontece nessa época do ano é que todo mundo precisa contratar extra, as embalagens ficam mais caras, então, não é uma tarefa simples cortar custos. Podemos olhar a grande indústria como um aprendizado, mas é um caminho a longo prazo para o pequeno.”
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Alternativas para o consumidor
Harald, que tem grande parte de seu público em empreendedores que trabalham com chocolate, apostou em adaptar seus produtos, “permitindo que o consumidor conseguisse ter opções de custo-benefício”, diz Marianne Ramos, gerente de marketing da Harald. Segundo a executiva, a empresa se preocupou em trazer alternativas em questão de preço, sabores e rendimentos, para que os negócios continuassem lucrativos. Um exemplo foi a criação de embalagens menores. As barras e pacotes de 2 kg agora têm versões de 1 kg, 500 g e 400 g.
No portfólio, a empresa também passou a a dar mais foco às coberturas, e relançou a marca Innovare, com sensorial próximo ao chocolate, para ser uma alternativa mais barata. O mapeamento de tendências de consumo, como pistache, caramelo e avelã, rendeu o lançamento de coberturas saborizadas especiais para a Páscoa.
Demonstração de valor
No caso de Tuta Aquino, criador da marca de chocolate bean to bar Baianí a tática é demonstrar o valor do produto. “Temos como pilar mostrar o sabor do cacau, o que implica em ter uma quantidade maior de cacau — e cacau integral”, afirma, dizendo que aposta na conscientização do consumidor. “Esse convencimento é maravilhoso. Uma vez que a pessoa experimenta, não volta mais. Mesmo que ache caro, ela entenderá que aquele produto tem esse diferencial”, afirma.
O empreendedor, que também representa o coletivo Bean to Bar, avalia que todo o setor está em dificuldade. “Alguns pequenos produtores estão se movimentando mais ou menos como a indústria, criando produtos que talvez tenham menos quantidade de cacau devido a escassez e ao custo”, afirma. “Com isso, eles precisam criar itens que talvez não quisessem produzir.”
Segundo ele, cortes na operação não são sempre viáveis para pequenos negócios. “É mais difícil conseguir investir na alteração da sua linha de produtos e na reformulação de tamanho, até porque isso envolve compra de novos moldes, por exemplo”, afirma. “Diferentemente da indústria, não temos essa possibilidade rápida de movimentação.”
Apesar dos desafios, o empreendedor espera um crescimento de pelo menos 100% na Páscoa. “Finalmente investimos em embalagens melhores para nossos ovos serem vendidos em pontos de vendas. No ano passado, elas eram um pouco artesanais, então, a logística de envio era mais complicada, agora eles estão arrumadinhos em caixas para a entrega ficar mais fácil.”
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