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Selic em alta pode inibir empreendedorismo e expansão de negócios, dizem especialistas

Selic em alta pode inibir empreendedorismo e expansão de negócios, dizem especialistas


Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou a taxa básica de juros para 14,75% no encontro encerrado na quarta-feira (7/5) A Selic subiu 0,5 ponto percentual e atingiu 14,75% no terceiro encontro do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), encerrado nesta quarta-feira (7/5). A taxa básica de juros, parâmetro que os bancos comerciais utilizam para oferecer crédito, vem em curva ascendente desde setembro de 2024.
Os efeitos do indicador, que não alcançava esse patamar desde julho de 2006 quando bateu 15,25% ao ano, devem atingir diretamente o empreendedorismo, segundo especialistas consultados por PEGN. Um dos pontos apontados é a inibição de aberturas de novos negócios, já que potenciais empreendedores podem optar por aplicar o dinheiro em oportunidades que geram maiores retornos financeiros e menos riscos. O outro é impacta a gestão financeira: como a tendência é que as margens de lucro fiquem mais apertadas, os empresários precisarão frear expansão e investimentos.
“Empreender no Brasil, um país com um ambiente de negócios notoriamente difícil, já exige um esforço considerável e envolve riscos elevados. Agora, para que valha a pena abrir em um empreendimento, ele vai precisar ser muito mais promissor”, diz Diego Marconatto, professor de empresas de alto crescimento da Fundação Dom Cabral (FDC). “Muitas vezes, é mais vantajoso aplicar o dinheiro do que abrir ou manter um negócio. Como se diz no setor, há quem prefira ‘ficar em casa dormindo’ e ainda assim ganhar 15% ao ano — o que, muitas vezes, supera o retorno médio (ROI) da indústria e do comércio brasileiro.”
A consequência, na percepção de Marconatto, é que empresários começam a se perguntar se vale a pena seguir enfrentando riscos trabalhistas, operacionais e competitivos para obter rentabilidade de 18% ou 20% ao ano, quando aplicações financeiras já garantem margem próxima ou superior à Selic. “Isso ajuda a explicar por que o Brasil, historicamente, é conhecido como o país do rentismo: aquele em que o investidor deixa o dinheiro no banco e vive dos rendimentos.”
A tendência também afeta pessoas que já possuem empresas em operação, diz Celso Grisi, professor da FIA Business School. “Há um freio nos investimentos em projetos de expansão e de inovação. A aquisição de ativos costuma ser adiada ou cancelada, já que o dinheiro pode render mais em outras aplicações do que no próprio negócio. Com isso, os investimentos acabam sendo direcionados para aplicações financeiras mais seguras e rentáveis, como a renda fixa”, afirma.
Para os especialistas, os empreendedores devem evitar situações de risco neste momento. “O cenário de juros altos exige planejamento estratégico e decisões mais analíticas para manter a competitividade do caixa saudável”, diz Grisi.
Ele recomenda revisar o fluxo de caixa semanalmente, evitar novas dívidas, renegociar débitos existentes buscando melhores prazos e taxas, e evitar a antecipação de recebíveis com custo elevado. “Negociar prazos, preços e formas de pagamento com fornecedores também é fundamental. Sempre que possível, e havendo recursos disponíveis, vale a pena aproveitar descontos para pagamentos antecipados”, sugere.
“Também é importante revisar constantemente os preços e as margens de lucro, focar em produtos e serviços com maior giro ou maior margem, estimular pagamentos à vista com desconto e oferecer combos ou pacotes para aumentar o tíquete médio das vendas.”
Saiba mais
A sugestão dos especialistas é evitar tomar crédito. Se for necessário, eles recomendam buscar alternativas de financiamento, como fintechs e cooperativas que podem oferecer juros mais baixos.
De acordo com George Sales, coordenador de mestrado na Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), o empreendedor vai precisar fazer cálculos. “O ponto central, nesse caso, é a análise de viabilidade: só vale a pena contrair dívida se a taxa de retorno do negócio for superior à taxa de juros do empréstimo. Por exemplo, se a taxa interna de retorno (TIR) da empresa for de 25% e o banco oferecer crédito a 20% ao ano, existe um spread de 5%”, afirma.
No entanto, ele diz que essa margem é considerada arriscada — qualquer oscilação pode comprometer a rentabilidade. “O ideal é que o empreendedor tenha uma folga maior: se a TIR estiver em 30% e o crédito for contratado a 20%, há uma diferença de 10%, o que oferece mais segurança para assumir o risco. Já quando a taxa de retorno está próxima ou abaixo da taxa de juros, a expansão se torna inviável.”
Por que os juros sobem?
O aumento da taxa básica de juros ocorre como uma resposta à inflação elevada. Na teoria, a tendência é o BC passe a baixar o índice uma vez que a alta nos preços for controlada. “O Brasil enfrenta um déficit persistente nas contas públicas, o que contribui para o atual cenário de inflação elevada e, consequentemente, para a alta da Selic. Essa é a cadeia causal: desequilíbrio fiscal leva ao aumento da inflação, que exige juros mais altos para ser controlada”, diz o professor da FDC, acrescentando que esse movimento já se repetiu inúmeras vezes.
“Quando os juros sobem, a consequência costuma ser uma desaceleração da economia, com queda no consumo, aumento do desemprego e, mais adiante, a necessidade de reduzir novamente os juros para estimular o crescimento — iniciando um novo ciclo.”
Segundo o Boletim Focus, a taxa básica de juros deve encerrar 2025 em 14,75%. Para o fim de 2026, a previsão é de que a Selic seja de 12,5% ao ano. Para 2027, a expectativa é de 10,5%.
Planejamento de médio prazo
Para Grisi, os empreendedores devem fazer planos de médio prazo para o momento de queda. “As incertezas externas — como os juros elevados nos Estados Unidos — e as pressões fiscais internas podem tornar o processo de retomada mais lento e cauteloso. Isso significa tanto desaceleração no crescimento quanto redução no ritmo de queda da Selic”, afirma.
Diante desse cenário, ele diz que é importante que o empreendedor siga com atenção redobrada sobre o fluxo de caixa e evite assumir dívidas de longo prazo. Caso espere cortes futuros na taxa de juros, o ideal é aguardar a estabilização antes de comprometer o capital em financiamentos mais extensos.
“Com a perspectiva de queda nos juros, o planejamento de investimentos de médio prazo — como projetos de expansão, digitalização e inovação — volta ao radar. No entanto, é hora de preparar estudos de viabilidade e aguardar melhores condições de crédito para executá-los”, diz Grisi.
A recomendação é aproveitar o período de juros altos também para reavaliar o portfólio de produtos e a estratégia de precificação para, quando a economia der sinais de recuperação, aproveitar a oportunidade de reajustar preços, relançar produtos e impulsionar as vendas.
“Fortalecer o relacionamento com bancos e fintechs é essencial. Crie um bom histórico de crédito, mantenha indicadores financeiros sólidos e esteja preparado para aproveitar as melhores condições de financiamento que possam surgir. Além disso, capacite sua equipe para, em um ambiente econômico mais favorável, gerar ganhos de produtividade por meio da tecnologia e da automação”, diz o professor da FIA Business School.
A próxima reunião do Copom para definir a taxa básica de juros será nos dias 17 e 18 de junho.
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