Professora empreende com confecção de bonecas e jogos afro de olho em representatividade

A Pretitas da Fê foi fundada por Fernanda Domingos em 2017 com o objetivo de gerar renda extra para arcar com a faculdade de pedagogia. Hoje, ela leva os produtos para dentro da sala de aula Quando decidiu cursar pedagogia Fernanda Domingos, 35 anos, viu no artesanato um caminho para fazer uma renda extra capaz de ajudá-la com as despesas da faculdade. Mãe solo de três meninas, ela fundou a Pretitas da Fê, marca com foco na cultura negra que começou com a produção de chaveiros e expandiu para a confecção de bonecas e jogos e oficinas.
De acordo com a empreendedora, a escolha pelos artigos representativos de sua cultura surgiu da frustração ao encontrar poucas referências de trabalhos artesanais com esse foco. “Vi que mesmo em trabalhos feitos de forma personalizada era difícil encontrar a identidade negra. Quando achava, eram coisas muito caricatas. No caso das bonecas, existia sempre um tecido escuro, cabelos espetados para cima, olhos grandes e batom vermelho. Isso não poderia ser considerado representatividade”, afirma Domingos.
Em 2017, quando deu início à sua produção, a empreendedora optou por fazer chaveiros de pequenas bonecas de turbante, que foram ganhando diferentes personalizações com o tempo, com o objetivo de gerar identificação nos consumidores. Atendendo a pedidos da clientela, que buscava bonecas maiores, Domingos passou a produzir bonecas de feltro. Todos os produtos são feitos manualmente pela empreendedora, e cada boneca leva até cinco horas para ser confeccionada.
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“Elas foram muito bem recebidas. Em 2022, eu me formei com dinheiro das vendas e com o crescimento da Pretitas. Nesse momento, eu sabia que não poderia deixar minha produção de lado, até poque via que o trabalho se relacionava com a minha formação”, conta Domingos. No ano passado, a empresária deu um novo passo que potencializou o faturamento da marca: a produção de bonecas de pano, atual carro-chefe da empresa.
Hoje, ela mantém um estoque fixo de cerca de dez bonecas pequenas de pano (vendidas a R$ 80 cada uma), cinco bonecas médias (R$ 130) e duas bonecas grandes (R$ 150). Outros modelos podem ser encomendados para produção feita sob demanda. Por mês, são comercializadas cerca de 15 bonecas, número que aumenta em datas comemorativas e quando há participações da marca em eventos. “Em março, por exemplo, participei de um evento de Dia das Mulheres e, só lá, vendi 18 bonecas”, diz.
Produtos da Pretitas da Fê
Divulgação
Com a experiência dentro da sala de aula, Domingos iniciou também a produção de um jogo da memória afro, com diferentes símbolos da cultura negra. De acordo com a empreendedora, a ideia surgiu depois de sentir falta de materiais criativos para o ensino nas escolas. Pela Lei 10.639/03, as instituições são obrigadas a oferecer ao ensino fundamental e médio educação sobre história e cultura afro-brasileira.
“O jogo pode ser usado de diferentes maneiras em sala de aula. É uma forma lúdica de apresentar elementos que podem ser desconhecidos de alguns alunos e aprofundar a história do que cada carta apresenta. O jogo conta com itens como pente-garfo, jambé [instrumento musical típico da Guiné], baobá [árvore símbolo de culturas africanas] e outros símbolos representativos”, comenta.
Jogo da Memória Afro produzido pela Pretitas da Fê e vendido por R$ 75
Divulgação
Domingos, que mantém o registro de microempreendedora individual (MEI) desde o início do trabalho com a Pretitas da Fê, afirma que a formalização foi essencial para a comercialização de alguns dos produtos para escolas, assim como para a participação em feiras e outros eventos.
Para 2025, a expectativa da empresária é se aproximar de mais instituições de ensino e oferecer outros serviços, como o de oficinas, criado neste ano. “É uma proposta para crianças confeccionarem os próprios bonecos negros para que todas elas, sejam negras ou não, tenham vivência de cuidado e afeto com os corpos negros”, explica a empreendedora.
Kit de Oficina na Lata produzido pela Pretitas da Fê (R$ 40 com uma boneca, R$ 55 com duas)
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Com um faturamento de até R$ 3 mil por mês, Domingos espera alcançar até R$ 5 mil mensais em 2025, impulsionados pela parceria com escolas. Atualmente, as vendas acontecem a partir de canais digitais, como WhatsApp e Instagram, além de alguns eventos presenciais pela Grande São Paulo.
Para Domingos, seu maior sonho de empreendedora é ser mais reconhecida e ver menos preconceito com seu trabalho. “Busco trazer cada vez mais representatividade, com bonecas com vitiligo, indígenas e representações de orixás, mas muitas vezes recebo um estímulo contrário a isso. Tive que criar um perfil separado para artes com orixás, por exemplo, porque meu número de seguidores caía sempre que compartilhava uma dessas bonecas. Mas eu seguirei lutando e acreditando que a arte e a educação fazem a diferença”, conclui.
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