Nova moda no mundo fitness: ‘microgym’ agrada quem quer malhar e socializar

Com modalidade única, aulas em grupo e visual ‘instagramável’, microacademias viram nova tendência no mundo fitness Da ioga em uma sala aquecida a 40 graus até a bicicleta ergométrica em um ambiente escuro com jogo de luzes e som alto, as microacademias estão em alta no mundo fitness.
Os pequenos estabelecimentos especializados em uma só modalidade esportiva com aulas em grupo seguem a tendência da microgym, cuja força no Brasil foi evidenciada em 2024 com a aquisição da rede de estúdios Velocity & Kore pelo grupo Bio Ritmo-Smart Fit, gigante das academias no país. Outras empresas do setor de bem-estar também investem nesse novo modelo.
O público é sobretudo feminino (70% a 90%), jovem e das classes A e B. Nas redes sociais, o ambiente faz sucesso. “Vem comigo ver como é uma aula de hot ioga”, dizem mulheres jovens com conjuntos esportivos combinando em vídeos virais no TikTok e no Instagram. O mesmo se repete com outras modalidades como spinning, pilates, bootcamp e treinos funcionais.
Diferentemente do que ocorre em uma academia comum, nessas geralmente se paga por aulas avulsas, que custam entre R$ 40 e R$ 60, embora seja possível fazer pacotes mensais. O usuário compra créditos e depois agenda um horário na unidade escolhida.
Ali não é necessário revezar o uso de aparelhos nem se preocupar com lotação. Não é preciso nem escolher que treino fazer. As vagas são limitadas, os treinos são pré–definidos e os instrutores fazem de tudo para motivar seus alunos do início ao fim das aulas, de 40 minutos a uma hora.
Ana Carolina Corona, diretora das miniacademias do Grupo Bio Ritmo, conta que começou a observar essa tendência em 2017. No ano seguinte, lançou a Vidya, com ioga em sala aquecida.
De lá para cá, somaram-se as redes Race Bootcamp, Tonus Gym (treinos rápidos de musculação), JAB House (mistura de boxe com exercícios funcionais), One Pilates (treino de pilates de forma intensiva, com apenas um equipamento, o “reformer”), além do Velocity & Kore. Hoje, são 200 unidades (80% franquias) no país e algumas em Portugal, Espanha e Guatemala.
— Vimos este movimento fora do Brasil e percebemos que não era moda, mas uma tendência que veio para ficar para um cliente que não se encaixa no modelo low-cost (baixo custo) e no high-end (luxo), mas que gosta de um estilo de treino diferente, mais rápido, enérgico, divertido. Você marca a aula, entra e sai (logo) da academia. É para o cliente mais jovem, com a vida mais corrida — diz a executiva.
Mimos no vestiário
A aula de spinning dura 50 minutos e tem ares de balada: música alta do funk ao eletrônico, sala escura com luzes de led e o instrutor soltando no microfone frases motivacionais. Tudo isso no sobe e desce do pedal sem parar nem por um segundo, no ritmo dos colegas. Já no bootcamp, há uma mistura de corrida com treino intenso de força, também em menos de uma hora.
O pilates feito só no “reformer” (espécie de cama deslizante com molas) é a inovação mais recente e lembra muito pouco a modalidade tradicional. Em vez de uma sala pequena com duas ou três pessoas, a atividade é feita em um espaço grande, com 18 posições, onde são feitos exercícios mais intensos, sem pausa e, claro, música no último volume.
O sucesso é tanto, que marcar aulas para um sábado nas três unidades do One Pilates em São Paulo (Itaim, Pinheiros e Anália Franco) virou uma tarefa hercúlea: as vagas se esgotam no meio da semana.
Algumas microacademias ainda contam com regalias no vestiário, como banheira de gelo, secadores, toalhas e produtos de higiene pessoal. Depois do treino, os clientes têm bananas à disposição.
A advogada Marcela Marconi, de 29 anos, começou a fazer spinning há dois anos, após ouvir falar sobre a modalidade por suas amigas e nas redes sociais. Hoje, ela faz o treino funcional do Kore, além de pilates e hot yoga, e está sempre buscando novas atividades para testar. E diz que a academia tradicional não tem mais espaço em sua vida.
— Essas microacademias funcionam muito melhor para mim. Nas aulas sempre tem a orientação de um instrutor, na academia você fica mais abandonado. Os exercícios são sempre diferentes, mais animados e dinâmicos, e, como mulher, eu me sinto melhor nessas aulas que no ambiente de musculação, que é mais masculino. E poder agendar uma aula a qualquer momento, que dura menos de uma hora, otimiza meu tempo — conta Marconi, destacando que as aulas viraram uma espécie de lazer para ela e suas amigas, que vão aos treinos e depois saem para comer algo saudável e conversar.
— Uso essas aulas também para socializar.
Para Corona, o fato de as aulas serem coletivas explica por que o modelo atrai mais mulheres que homens em todas as modalidades.
Bem-estar e diversão
A mesma percepção tem Daniel Nasser, que criou a Spin ‘n Soul, rede de spinning que tem cinco microacademias em São Paulo. Seu público é 80% feminino. O negócio surgiu quando, há dez anos, viu o formato crescer em cidades americanas como Nova York e Los Angeles. Chegou a ter oito unidades, algumas franqueadas, mas agora prepara a expansão para outras cidades, começando pelo Rio.
— Esse modelo de academia funciona bem para quem procura o bem-estar como estilo de vida, vira um hobby mesmo, porque é divertido, mistura o movimento do corpo com o bem-estar mental, essa busca pela serotonina de forma não competitiva. E esse modelo de comprar uma aula só, marcar e ir lá, dá mais flexibilidade para as pessoas, não tem esse compromisso de longo prazo como é numa academia — afirma o empresário, destacando que o crescimento dos agregadores de academia, como TotalPass, WellHub e Claspass, têm potencial de democratizar ainda mais esse tipo de estúdio.
Cuidado sensorial
Cida Conti é responsável pela The Flame, estúdio na Avenida Paulista que faz parte do grupo Ultra e oferece treinos de força, remo e esteiras. Ela foi precursora das aulas coletivas em minitrampolins, o jump, no país, e avalia que o mercado dos pequenos estúdios está em seu melhor momento:
— As pessoas não se contentam mais simplesmente em ir a uma academia e serem tratadas de forma padronizada. E quando você fala de microgym, é um ambiente em que as pessoas trocam muita informação, os professores sabem os nomes dos alunos, há um ambiente de interação. As microgyms representam uma evolução do que foram as aulas coletivas no passado, mas agora com um apelo tecnológico maior — diz Cida.
— O ambiente é diferente, há questões sensoriais como a playlist muito bem escolhida, a iluminação e o tempo, já que as pessoas sabem que naqueles 50, 60 minutos de duração dos treinos terão uma experiência completa. A forma de agendar é no aplicativo, não tem lotação, ninguém quer ficar duas horas no treino — afirma a responsável pelo estúdio de treinos aeróbicos.
Para a assessora de comunicação Iara Monteiro, 29 anos, esse tipo de aula funciona como um complemento ao modelo tradicional, mas também uma alternativa de lazer. Ela começou pelo spinning, mas logo testou também as salas de ioga aquecida e bootcamp.
— O treino tem cara de balada, os professores são preocupados com os alunos, e você nunca vai chegar e o espaço vai estar cheio. São grupos pequenos, nunca mais que 20 pessoas. Você fica motivado a fazer junto. Quando pensa em diminuir o ritmo e vê que está todo mundo ativo, se esforçando, dá vontade de se esforçar mais um pouco também. Vou para sair da rotina da musculação tradicional, é mais divertido — diz.
