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Mais da metade das costureiras autônomas atua informalmente e recebe menos que um salário mínimo, diz pesquisa

Mais da metade das costureiras autônomas atua informalmente e recebe menos que um salário mínimo, diz pesquisa


Especialistas apontam falta de visibilidade e apoio à profissão como principais problemas Informalidade, baixa remuneração e falta de opções para capacitação em gestão de negócios. Esses são alguns dos principais desafios enfrentados por costureiras autônomas no Brasil, de acordo com uma pesquisa realizada pela coalizão de parceiros de Moda Justa Sustentável da Aliança Empreendedora, divulgada com exclusividade a PEGN.
O nicho de mulheres que trabalham com o reparo de roupas de forma autônoma – conhecidas popularmente como costureiras de consertos gerais – foi analisado pela organização a fim de traçar o perfil das profissionais, bem como mapear necessidades, desafios e sonhos relacionados ao trabalho.
“Em 2023 fomos desafiados a olhar para esse público de costureiras. Mas, quando fomos buscar informação para montarmos um curso de capacitação para elas, praticamente não achamos. É um público muito invisibilizado, com poucos dados. Por isso, entendemos que era importante fazer um mapeamento para entender essa realidade”, aponta Cristina Filizzola, líder de projetos e presidente da Aliança Empreendedora.
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Para as costureiras Alessandra Crisostomo, 49 anos, e Amelia Costa, 64, que trabalham com costura há 26 e 10 anos, respectivamente, ver a classe ganhando visibilidade é motivo de alegria. Apesar de se considerarem motivadas a trabalhar pelo amor à profissão — assim como 90% das mulheres entrevistadas pela pesquisa —, os desafios do dia a dia não passam despercebidos.
Costa, que já tinha trabalhado com a costura em outros momentos da vida, retomou a atividade durante a pandemia após o falecimento da filha, como forma de recuperar as memórias da infância dos filhos, quando ela costurava. Além do prazer de costurar, a empreendedora afirma que vê seu trabalho como uma forma de incentivo à moda circular. Porém, ela se sente desincentivada pela falta de uma estrutura de trabalho adequada. Um dos seus desafios é ter de usar máquinas que não atendem às suas demandas.
Costa não é a única a enfrentar esse problema. O estudo — que contou com a participação de 140 mulheres de 21 estados na primeira fase, e 40 mulheres de 13 estados na segunda — aponta que 77% mulheres relataram ter uma estrutura mínima ou não ter estrutura de trabalho.
Outra dificuldade das profissionais é a desvalorização financeira, que, para Crisostomo, é o principal problema da profissão. A pesquisa indica que 62% das costureiras que faturam com o trabalho ganham menos que um salário mínimo por mês, e 85% estão abaixo da faixa salarial média de uma costureira em regime CLT, segundo análise de dados do site salário.com.br, do Novo CAGED, do eSocial e do portal Empregador Web.
A dificuldade de rentabilizar o negócio tem origem em diferentes fatores, como o alto índice de informalidade e a falta de uma gestão financeira adequada. De acordo com a pesquisa, 62% das costureiras autônomas trabalham sem registro formal. A taxa é maior que a média do país, de 39,2% em 2023, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE. Das formalizadas, 36,4% são microempreendedoras individuais (MEIs) e 1,4% têm registro de microempresa (ME).
Ana Flávia Silva Moura, consultora de negócios do Sebrae-SP, explica que a baixa busca pela formalização do trabalho ocorre em razão da percepção da atividade de costura como um “bico” ou uma “atividade caseira”. “Por consequência, elas não buscam informação sobre a formalização e os benefícios que são auferidos. A formalização é importante em virtude dos direitos sociais, como acesso à previdência social, além de facilitar o acesso ao crédito, a fornecedores com matérias-primas diferenciadas e competitivas e [à possibilidade de] abrir novos mercados”, aponta Moura.
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Foi pensando nisso que Amelia Costa, que tinha desativado seu Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) enquanto trabalhava como confeiteira, decidiu reativar o registro de MEI quando retomou a atividade de costureira. “Senti essa necessidade, pois com o CNPJ posso dar recibo pelos serviços, assim como fazer trabalhos maiores para empresas”, conta.
Já Crisostomo afirma que passou a maior parte da carreira atuando de modo informal. Contudo, em 2021, depois de fazer um curso profissional de corte, costura e modelagem, decidiu abrir um MEI para buscar o crescimento no negócio. Desde então, a empreendedora afirma que se sente mais segura com o trabalho.
Assim como aconteceu com Crisostomo, que decidiu se formalizar após a realização de um curso profissional, a capacitação é apontada pela pesquisa da Aliança Empreendedora como um dos caminhos para mudar a realidade das costureiras autônomas no Brasil. Segundo os dados coletados, 83% das costureiras buscam capacitação em gestão de negócios e 91%, em técnicas de costura. Apesar do interesse, apenas 18% relataram ter contato com alguma rede de apoio as costureiras.
Com a dificuldade de acesso a cursos, a gestão do negócio surge como mais um desafio. “Uma das coisas que percebemos foi a dificuldade delas com a precificação, por exemplo. Não entender o que é a hora de trabalho e misturar as contas de casa com as contas do negócio impacta diretamente a vida dessas mulheres”, indica Cristina Filizzola, da Aliança Empreendedora.
De acordo com a pesquisa, cerca de 63% das costureiras não separam as contas profissionais das pessoais. Na segunda fase do estudo, feita de forma qualitativa com um número reduzido de mulheres, constatou-se que 60% não têm controles financeiros, e as que possuem não sabem como utilizá-los.
“A gestão financeira é uma habilidade crucial para o sucesso de qualquer costureira, seja ela iniciante ou experiente. Ter controle sobre as finanças do seu negócio significa ter autonomia para tomar decisões estratégicas, investir no crescimento e alcançar seus objetivos. Para iniciar a gestão financeira, é fundamental organizar e guardar os documentos, ser disciplinada e buscar conhecimento”, ressalta a consultora de negócios Ana Flávia Moura.
Perfil e sonhos das costureiras autônomas
Na primeira fase do estudo, com método quantitativo, 78% das participantes se autodeclararam negras (pardas e pretas). Já na segunda fase, de caráter qualitativo, todas se identificaram como negras (pardas e pretas). Dentre elas, 41% possuem ensino médio completo, com uma idade média de 39 a 48 anos.
Ao todo, 69% das profissionais afirmaram que se sentem sobrecarregadas. Entre as que trabalham exclusivamente com a costura, 43% trabalham todos os dias, e 36% folgam apenas uma vez por semana.
Segundo Filizzola, o contato com as mulheres se deu a partir da divulgação de um formulário, tanto nas mídias da Aliança Empreendedora quanto entre parceiros da coalizão de Moda Justa Sustentável, formada pelo Instituto C&A, Lojas Renner, Instituto SYN, Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil).
Com a maioria das mulheres trabalhando dentro de casa (85%), o sonho de ter o próprio ateliê ou espaço de costura surgiu como a principal meta entre 97,5% respondentes, que declararam ter sonhos como costureiras. “Tenho expectativa de dias melhores, sonho que um dia as costureiras de reparo sintam e vejam reconhecimento. Sonho pessoalmente com meu ateliê completo em um espaço físico”, conclui Crisostomo.
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