Jovem do interior de SP preserva sabedoria familiar e cria marca de crochê inspirada nas avós

Para além da venda de peças em crochê, Fernanda Isaac atua como professora de artesanato nas mídias sociais Neta de Maria das Dores e Maria Elena, a artesã Fernanda Maria Isaac, de 28 anos, sempre teve como exemplo familiares que exerciam a criatividade em atividades manuais, sobretudo o crochê e o tricô. Com o decorrer do tempo, a jovem se viu dividida entre uma carreira na área jornalística ou no artesanato profissional. Com o objetivo de resgatar e valorizar seus saberes ancestrais, decidiu ingressar no campo do empreendedorismo e criar marca Negra Maria. O negócio vende bolsas, cestos, chaveiros, vasos e porta canecas feitos à base de fios de malha, o famoso crochê. Os produtos são comercializados pelo e-commerce e de forma presencial, na região da cidade de Olímpia, localizada no interior de São Paulo.
O despertar ao mundo dos negócios ocorreu enquanto Fernanda ainda trabalhava no universo corporativo e estudava jornalismo. Nas horas vagas, entre as atividades profissionais e os estudos, a jovem produzia peças em tricô sob demanda. No entanto, certa vez, uma colega de curso pediu uma bolsa no formato de melancia feita em crochê, técnica que a paulista ainda não tinha desenvolvido. Por meio de tutoriais no YouTube, ela aprendeu a fazer o produto. Foi quando percebeu que o artesanato também poderia ser um caminho profissional.
“Em uma aula de empreendedorismo na faculdade de jornalismo, eu percebi que também poderia explorar essa área. Então, com os conhecimentos que eu tinha na área da comunicação, resolvi abrir a minha própria empresa em 2019, após eu me formar em jornalismo. Sempre tive algo que me chamava para o trabalho manual, até porque eu também sempre tive o sonho de poder trabalhar para mim”, conta a empreendedora.
Com apenas R$ 150 emprestados por sua mãe, Fernanda Isaac foi à cidade vizinha, em São José do Rio Preto (SP), comprar os primeiros materiais para o negócio. Apesar de ter iniciado as produções em meados de 2019, a jovem conta que só formalizou sua marca em 2021, por não ter noções de como gerenciar as burocracias demandadas por uma empresa.
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Logo no início, sendo jovem, negra e comandando seu primeiro negócio no interior, a empreendedora relata que a principal dificuldade para emplacar a marca foi ganhar a confiança do público. “Passar credibilidade às pessoas já é uma tarefa difícil por eu ser uma mulher negra, então eu tinha que sempre justificar o que eu estava fazendo. As pessoas não acreditavam no meu trabalho, porque elas visualizam o crochê e o artesanato como um hobby, não como uma profissão”, argumenta.
Atualmente, a marca Negra Maria atua na comercialização de peças sob encomenda, mas também tem peças fixas de catálogo, vendidas principalmente em feiras de artesanato. “Eu gosto de trabalhar com encomenda, pois assim posso fazer um produto de acordo com o gosto de cada cliente. Acho que o artesanato e o crochê, por serem feitos à mão, refletem afeto e sentimento. As bolsas da Negra Maria já foram para outros países, como Portugal, França, Itália e Estados Unidos, além de quase todos os estados do Brasil”, afirma Fernanda.
A marca Negra Maria atua coma a venda de bolsas e artigos em crochê
Reprodução/Instagram
Segundo a empreendedora, seu objetivo é tirar o crochê da invisibilidade profissional, de modo a mostrar ao público que essa técnica é moderna e também carrega saberes ancestrais. “Eu não estaria aqui se não fossem as pessoas que vieram antes de mim. As técnicas são passadas de geração em geração. O meu outro objetivo é fazer com que a Negra Maria também chegue na casa de outras mulheres pretas, para que elas consigam entender e enxergar as potencialidades delas”, conta.
Com esse objetivo, a empreendedora começou a oferecer aulas online de crochê. Segundo ela, algumas de suas alunas já começaram a vender peças e hoje tem suas próprias marcas. O faturamento mensal da empreendedora hoje varia entre R$ 3 mil a R$ 6.500, com uma média anual de R$ 48 mil. Mais do que uma fonte de renda, ela diz que o negócio carrega um simbolismo importante.
“Costumo dizer que a Negra Maria é a composição do que eu sou. Sou negra e sou Maria, não é comum, é uma mistura empoderada. Eu queria um crochê que conectasse a ancestralidade, história e a potência das mulheres. Falta pouco para completar cinco anos [desde que me formalizei]. Sobrevivi a uma pandemia e sigo firme com meu crochê. É emocionante para mim”, encerra.
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