Empresas calçadistas do RS dependem de crédito, logística e eventos para se recuperar

Cadeia produtiva de couros e calçados do Rio Grande do Sul emprega mais de 120 mil pessoas em cerca de 3 mil empresas Pouco mais de um mês depois do início das chuvas intensas que atingiram o Rio Grande do Sul, o setor calçadista calcula os prejuízos impostos pelas enchentes. Mesmo as fábricas e empresas do estado que já voltaram às atividades ainda enfrentam incertezas sobre as receitas dos próximos meses. O adiamento de feiras do setor, o processo de reconstrução logística e a necessidade de crédito são os principais desafios para a retomada do setor.
A cadeia produtiva de couros e calçados do Rio Grande do Sul emprega mais de 120 mil pessoas em cerca de 3 mil empresas, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) em maio. O estado é o segundo maior produtor de calçados do país, concentrando 23,9% do total nacional. Em 2023, foram fabricados 206,6 milhões de pares, atrás apenas do Ceará, com 224,9 milhões.
A produção de calçados está concentrada nas regiões do Vale do Sinos e do Vale do Paranhana, com 44,4% e 19,7% da fabricação de calçados do estado, respectivamente. Como os próprios nomes sugerem, a região é baixa, cortada por rios e próxima a morros, principalmente a Serra Gaúcha. Sendo assim, as águas das chuvas do começo do mês de maio subiram e baixaram rapidamente, seguindo para o lago Guaíba e para a lagoa dos Patos, no litoral do estado.
Levantamento feito pela Abicalçados aponta que 48% das empresas do setor foram atingidas pelas enchentes, e 7,2 mil trabalhadores do segmento foram diretamente atingidos pela catástrofe.
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O diretor da fábrica de calçados em couro Q-Sonho, na cidade de Três Coroas, Fabio Spohr, estima prejuízo de cerca de R$ 3 milhões, entre maquinário, matéria-prima e estoque atingidos pela água. As vendas da marca ainda foram atingidas pela postergação da feira Salão Internacional do Couro e do Calçado de Gramado, inicialmente prevista para 14 a 16 de maio e adiada para 1 a 3 de julho.
“Trabalhamos a partir dos pedidos. Na feira de Gramado iríamos apresentar nossa coleção verão. Como é uma feira internacional, teríamos contato com compradores da América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia. Não tivemos esses pedidos. Nas últimas semanas, fomos a uma feira em São Paulo onde conseguimos cerca de 1 milhão de reais em vendas, o que vai nos manter por algum tempo, mas não cobre as nossas perdas”, explica Spohr.
O diretor da Q-Sonho afirma que foi à feira em São Paulo com o catálogo de produtos que conseguiu recuperar em meio às enchentes e conseguiu firmar alguns negócios. Quinze dias após o início das chuvas, a fábrica retomou a operação e trabalha com cerca de 60% da capacidade instalada.
A maior parte da produção gaúcha é vendida para outros estados e para fora do país. Entre os meses de janeiro e abril deste ano, o Rio Grande do Sul exportou 11,1 milhões de pares de calçados, somando um total de US$ 168,53 milhões em produtos, de acordo com dados da Abicalçados. A produção é escoada por meio das estradas e dos aeroportos. Nos quatro primeiros meses do ano, um total de US$ 1,4 milhão em calçados de couro foram despachados pelo Aeroporto Salgado Filho, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, divulgados pela associação.
Além dos efeitos diretos nas fabricantes, os reflexos das enchentes na infraestrutura do estado dificultam a retomada plena do setor. O Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, segue fechado, com previsão de reabertura em dezembro. Segundo informações do Departamento Autônomo de estradas de Rodagem (DAER) nesta terça-feira (04/06), há cerca de 60 trechos bloqueados de forma parcial ou total em 34 rodovias, pontes e balsas que cruzam o Rio Grande do Sul.
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O diretor da calçadista Variettá, também em Três Coroas, Márcio Port dos Santos, explica que a cidade é bem localizada e próxima à cidade de Gramado e a rodovias importantes, o que facilita a retomada da operação. A situação, porém, não se aplica a muitos clientes e prestadores de serviço afetados pelas chuvas.
“Alguns parceiros estão com problemas de logística. A gente tem uma transportadora para entregar praticamente por toda a região Sul em 48 horas, mas hoje eu estou levando praticamente quatro dias. Para São Paulo, não entregamos mais em três dias, e sim em cinco”, pontua Santos.
Com a diminuição das vendas, a saída encontrada é negociar com credores e fornecedores e pedir adiantamento e maior tempo de entrega aos clientes. A administradora da fabricante de calçados Ipadma, Sirlei Feiten, ressalta que os negócios postergados no mês de maio causam problemas de fluxo de caixa em outros meses, pois os fabricantes locais trabalham com produção sob demanda e dependem de capital de giro.
“A gente precisa de crédito, precisa de injeção de dinheiro nas indústrias para recuperar esse prejuízo, porque, querendo ou não, todas as empresas tiveram prejuízos muito grandes. E para recuperarmos esse prejuízo, precisamos ter alguma injeção de capital. Uma das coisas que estamos fazendo é buscar a capital no mercado”, diz Feiten.
No último mês, o governo federal anunciou pacotes de medidas de suporte a empresas do Rio Grande do Sul. Entre elas estão a disponibilização de recursos pelo Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) e por meio do Fundo Social.
Para ajudar os trabalhadores do setor calçadista e na recuperação das atividades, a Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) e o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), em parceria com empresas do setor, lançaram o Movimento Próximos Passos RS, voltado à arrecadação de fundos.
“Estamos empenhados, neste primeiro momento, em ajudar as mais de 7 mil famílias calçadistas que foram atingidas pelas enchentes. Todo o valor arrecadado será destinado, por intermédio de entidades beneficentes das cidades atingidas, aos trabalhadores e trabalhadoras da indústria de calçados, couros e componentes que foram atingidos pela catástrofe climática”, pontua o presidente-executivo da Assintecal, Haroldo Ferreira.
Marcos Lélis, professor no Programa de Gestão e Negócios da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), pontua que o setor calçadista do Rio Grande do Sul possui empresas de diversos tamanhos. O especialista analisa que as grandes empresas dependem, sobretudo, da reconstrução logística das estradas e aeroportos. Já os pequenos e médios negócios precisam reestruturar o caixa por meio de linhas de crédito e flexibilização de obrigações trabalhistas.
O especialista projeta que a recuperação do setor de calçados deva se prolongar de acordo com a reconstrução de estradas e pontes atingidas pelas chuvas, a reabertura do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, e a burocracia necessária para liberar linhas de crédito aos empreendimentos. “A retomada do setor gaúcho vai ocorrer paulatinamente. É como se uma parte da produção do Rio Grande do Sul estivesse desligada do restante do país”, argumenta Lélis.
