Empreendedora cria sorvete vegano com açúcar de maçã e fatura até R$ 40 mil por mês

Lidiane Barbosa é chef funcional e sonhava em desenvolver um sorvete artesanal com fórmula inovadora Sorvete saudável, clean label e low carb. Essa é a proposta da Roomys, marca que nasceu em Santa Catarina, já está em mais da metade dos estados brasileiros e mira o comércio exterior. Por trás da empreitada, está a empreendedora Lidiane Barbosa, chef funcional que abandonou o Direito para trabalhar com o ramo alimentício. Ela toca o negócio ao lado do marido, Marcos Felipe Kleimann, e fica responsável pela área de produtos da marca e pelo desenvolvimento de novos sabores.
Com dois anos de operação, tem produzido 950 kg de sorvete e ultrapassado a receita de R$ 40 mil por mês, um cenário bem diferente dos primeiros meses de atividades, quando praticamente não vendia nada. A virada aconteceu no ano passado.
O “boom” veio entre maio e novembro de 2023, quando o negócio atingiu um crescimento de 130% e aumento de 30 para 110 pontos de venda pelo país — atualmente, são 180. A expansão refletiu, obviamente, no faturamento, fechando o ano em R$ 445 mil.
Os números só aumentam: no primeiro quadrimestre deste ano, a soma das vendas bateu a casa dos R$ 237 mil, computando crescimento de 176% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Mudança de rumos
Natural de Santos, no litoral paulista, Lidiane Barbosa vive em Blumenau (SC) há 12 anos. Advogada por formação, logo que conquistou a OAB, resolveu fazer uma especialização técnica em gastronomia, sua antiga paixão. Largou as causas jurídicas quando conseguiu se dedicar 100% à gastronomia.
“Comecei aprendendo a teoria e colocando em prática em aulas de personal cook que eu lecionava, transformando cardápios que nutricionistas indicavam para pacientes”, relata. Conforme a demanda pelo trabalho aumentava, ela passou a viajar pelo país, ministrando cursos.
Estudou gestão de negócios em alimentação e, desde 2014, atua como consultora de restaurantes, assinando cardápios. Ainda desenvolve produtos dentro do nicho da saudabilidade para a indústria alimentícia, atendendo empresas de tamanhos variados. “Hoje, 90% do meu tempo é direcionado para a Roomys e 10% para consultorias”, diz Barbosa.
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Foi atuando como consultora de restaurantes que ela se deparou com a necessidade dos clientes de terem um sorvete saudável no cardápio. O objetivo era ter um item “com rótulo limpo de verdade e que fosse indulgente, muito cremoso e gostoso”. “Muitos itens não casavam com a necessidade. Uns eram saborosos, mas o rótulo não era limpo; outros tinham rótulo limpo, mas não eram gostosos”, lembra-se.
Em 2019, convidada para dar duas aulas em Lisboa, capital de Portugal, a empreendedora resolveu estender a viagem para a Itália. “Fui aprender a fazer a base de um gelato tradicional em Grosseto, para entender como funcionava quimicamente. O gelato é uma fórmula composta de leite, gordura e açúcar refinado. O que eu queria era transformar o sorvete em algo saudável, pois, apesar de ser tão amado por todos, é considerado o quarto pior produto ultraprocessado que existe”, argumenta.
Antes da visita à Itália, fez um curso em Penedo (RJ), porque queria começar a entender a química da erceita em sua língua-materna, para só depois partir para estudos sobre o assunto fora do país. No campo da gastronomia funcional, fez especializações em escolas na Espanha, França, Inglaterra e Estados Unidos.
“Eu queria juntar o estudo dos alimentos e a curiosidade em descobrir novas matérias-primas com as técnicas de como fazer um bom gelato”, reforça. Apesar dos cursos, o projeto foi engavetado durante a pandemia, mas retomado em 2021. Em junho daquele ano, ela começou os testes com as matérias-primas escolhidas, numa máquina caseira.
Quatro meses depois, adquiriu uma máquina industrial e, em novembro, começou a vender apenas em Blumenau, em embalagem de teste, para validar o produto e perceber os sabores preferidos do público.
Sorvetes da Roomys
Rodrigo Azevedo/Divulgação
Estrutura própria
Os 50 metros quadrados de uma cozinha industrial sublocada foram o berço para o nascimento oficial da empresa, em 2022. À época, não havia funcionários, e a produção era de 60 litros por mês. O investimento inicial foi de R$ 72 mil.
Na metade do ano passado, houve mudança de endereço para uma área própria de produção, pulando para 127 metros quadrados, o que exigiu aplicação de mais R$ 75 mil. Foi mais ou menos na mesma época que o casal adquiriu 100% do empreendimento, que até então tinha a participação de um sócio.
“Nos apertamos muito financeiramente, mas sabíamos que tínhamos um negócio com um potencial incrível na mão e que, por isso, deveríamos focar todos os nossos esforços para a empresa”, pontua Barbosa.
No primeiro trimestre deste ano, o projeto recebeu um aporte de R$ 200 mil, feito por um investidor catarinense. O montante foi direcionado para as áreas comercial, de logística e de produção, além de capital de giro. Atualmente, a Roomys opera em dois turnos e conta com quatro colaboradores.
A intenção é findar 2024 com um crescimento de 90% em relação a 2023. A aposta é fechar o ano produzindo 2 toneladas a cada 30 dias – a capacidade é de até 4 toneladas/ mês.
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Diferenciais do produto
A empreendedora explica que o produto é inovador porque é o primeiro sorvete adoçado com açúcar de maçã no mercado brasileiro. São quase dez sabores lançados até agora e nenhum deles leva ingredientes do tradicional sorvete. Feitos com fibras naturais, os sorvetes não têm leite, lactose, glúten, soja, gordura hidrogenada, corantes ou aromatizantes.
“Conseguimos transformar a forma de fazer e consumir sorvetes. Somos aptos para veganos, celíacos, alérgicos a APLV. É sorvete feito de um jeito que ninguém imaginou, para todas as idades, de crianças e idosos”, afirma Barbosa.
Outro destaque é a linha Protein, com sorvete vegano, fonte de proteína e fibras e rico em vitamina B12. “A Protein não é feita somente para quem foca em academia e treinos pesados. Todos nós precisamos diariamente de aporte de proteína e vitaminas. Cada potinho traz o equivalente a 42% da ingestão de proteína necessária por dia”, divulga.
Atualmente, a marca desenvolve um novo sabor a cada quatro meses. Nem sempre foi assim. Barbosa demorou a acertar quais ingredientes poderiam substituir os que são usualmente adotados nos sorvetes tradicionais.
“Além de ter que transformar uma fórmula muito conhecida em algo completamente disruptivo, que ninguém usava, ainda tive que adaptar os insumos que eu entendia como possíveis substitutos, porque eram mais naturais, mais limpos, clean label. Não tive apoio técnico, porque era algo novo, e ninguém dizia que o que podia ser usado para o que eu queria”, cita.
Os principais ingredientes dos sorvetes da Roomys são: fibra de bambu, fibra de chicória, pasta de castanha de caju — que, dependendo do sabor do sorvete, se une às pasta de amendoim e pistache —, goma alfarroba e bebidas vegetais. Na linha Protein, são adotadas proteínas isoladas de ervilha e de arroz, sem gosto residual. Também usa-se o adoçante natural de maçã desenvolvido por Barbosa, que tem como um dos ingredientes o stevia.
“Nossa grande diferenciação no mercado é a transformação dos ingredientes transformados em um sorvete cremoso, saboroso, indulgente, saudável. Somos o primeiro sorvete feito à base de açúcar de maçã e o primeiro sorvete como fonte de proteína vegetal do país”, reforça.
Além do produto final, eles fazem pralinés, caramelos, caldas, barrinhas e cookies proteicos. De olho no mercado externo, estão patenteando as criações. “Pensar no mercado externo me abriu para mais um desenvolvimento, que é transformar a fórmula em pó. Parecia impossível, mas já estamos nos ajustes finais”, revela.
Prova faz diferença
Uma das estratégias atuais é investir no envio de amostras. “Experimentar nossos produtos é um divisor de águas. A partir do momento que os responsáveis pelos pontos de venda experimentam e comprovam que nossos produtos aliam sabor e textura à saudabilidade, qualquer objeção cai por terra e conseguem ver o real valor dos produtos”, afirma a criadora.
Para conquistar o consumidor final, adotaram ações de comercialização direta (sell-out) e degustações em lojas, aumentando muito o giro dos produtos nos pontos de venda.
Os sorvetes da marca costumam ser comercializados em lojas de produtos naturais, redes de supermercados, restaurantes, hotéis, escolas e até hospitais. “Devido à sua composição, foi aprovado por médicos e nutricionistas do Hospital Sírio Libanês”, afirma a criadora.
Lojas de conveniência em postos de gasolina são o próximo foco, por serem considerados pontos interessantes para pulverizar os produtos e fazer com que cheguem a mais pessoas.
Para chegar ao país inteiro, foi necessário adotar uma estratégia comercial que inclui a ampliação logística. A fim de garantir a entrega com a refrigeração necessária nas regiões Norte e Nordeste, sem perder a característica artesanal da marca, a empresa passou a contar com parceiros em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, que armazenam e distribuem os produtos para os demais estados brasileiros.
No momento, a Roomys não possui loja física. O planejamento é que, em 2026, tenham um ponto fixo em São Paulo, uma espécie de loja-vitrine, com sabores novos e diferentes. “Voltar para São Paulo está em nossos planos, por conta do desafio logístico que temos atualmente, mantendo a sede em Blumenau”, comenta.
O sorvete é comercializado nas versões de 100ml/60g e 250 ml/190g. O preço final varia de acordo com o frete pago pelo cliente (ou seja, o transporte influencia demais no valor final), mas em média o pote menor custa R$ 12, e o maior, R$ 34.
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