Dia dos Pais: as empresas que nasceram ou cresceram a partir da relação de pais e filhos

Empreendedores compartilham desafios e vantagens de empreender em família Pais empreendedores costumam inspirar filhos a seguir pelo mesmo caminho, seja herdando o legado ou até empreendendo junto e aprimorando o negócio com uma nova visão. A paternidade também pode ser um motor para a abertura de uma empresa, quando os empreendedores buscam melhores condições financeiras ou flexibilidade de horário para criar os filhos.
Neste Dia dos Pais, PEGN conta algumas histórias de empreendedorismo inspiradas ou motivadas pela relação de pais e filhos.
Empresas familiares
Hoje, 90% dos negócios brasileiras têm perfil familiar, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até mesmo grandes empresas, como Grupo Hope, entram nessa estatística. A empresa tem 285 unidades franqueadas, que, somadas, devem fechar o ano com um faturamento de R$ 420 milhões.
O negócio de peças íntimas foi fundado pelo empreendedor Nissim Hara, que faleceu em 2020. Suas três filhas o sucederam, mas apenas uma delas segue em um cargo executivo: Sandra Chayo, de 49 anos. Hoje diretora institucional do grupo, a executiva conta que a transição foi cheia de desafios, mas que faz questão de manter o legado do pai – mesmo que a parceria com suas irmãs tenha trazido um olhar mais feminino para o negócio.
Nissim Hara, fundador da Hope (falecido em 2020), e Sandra Chayo, diretora institucional da empresa
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“Após o falecimento do meu pai, enfrentei o desafio emocional de manter a empresa forte e presente para nossos colaboradores e clientes. Olhando para trás, sinto orgulho de ter impulsionado ainda mais o sucesso da empresa, aumentando o faturamento e impactando positivamente a vida das pessoas que trabalham conosco e das mulheres brasileiras”, diz.
Chayo começou a trabalhar na empresa ainda enquanto Hara era vivo. Ela chegou a ocupar os cargos de diretora de marketing e de conselheira e tinha participação ativa em alguns comitês, como o de franquias. Ou seja, ela já ajudava a moldar o negócio.
Sucessão
Um empreendedor que vem passando por algo parecido com o que Chayo lidou é Carlos Júnior, 25 anos, atual CEO da rede Frango no Pote, que tem 70 franquias e um faturamento de R$ 110 milhões.
Carlos Júnior e Carlos Nepomuceno, da Frango no Pote: filho assumiu negócio criado pelo pai
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A rede começou na churrasqueira da casa do pai de Carlos Júnior, Carlos Nepomuceno, 52 anos, em Brasília, há cerca de 12 anos. Júnior já acompanhava o negócio desde criança, mas, após uma viagem aos Estados Unidos e a formação em gastronomia, resolveu se juntar ao pai, em 2018.
“Vejo como um privilégio [assumir o legado do pai]. Diferentemente de sucessões que ocorrem em empresas já estabilizadas, a nossa foi mais natural e construída também por mim. Tenho muito orgulho de tocar o negócio da minha família, e faço isso com muito respeito e dedicação. Mantendo sempre o toque de excelência e olhar de águia que meu pai tem.”
A filha de Carlos Júnior, Stella, de apenas 2 anos, já acompanha o pai na operação e, de acordo com ele, gosta de brincar com os papéis. “Ver a Stella aqui comigo, mostrando interesse pelo trabalho, é muito especial. Quem sabe ela não será a próxima sucessora do Frango no Pote?”, diz.
Saiba mais
Parceria
A rede de franquias Buddha Spa conta atualmente com 112 unidades — e se expande com uma média de três novas unidades por mês. O negócio foi fundado em 2001 por Gustavo Albanesi, que já tinha planos de deixar o mercado financeiro para empreender. O segmento de bem-estar foi escolhido por seu pai, Jayme Santos, frequentador de spas e adepto de massagens para relaxar. Ele convenceu o filho a investir no setor e, juntos, inauguraram primeira clínica de massagem no bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo. O local é sede da franqueadora e única unidade própria da rede.
Gustavo Albanesi e Jayme Santos, do Buddha Spa
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Pai e filho participam ativamente do negócio. Aos 70 anos, Santos é principalmente responsável pela unidade própria, envolvendo-se na mentoria de terapeutas, na promoção da cultura e na transmissão dos conceitos e da filosofia da rede. Já Albanesi, 42, cuida da gestão da franqueadora, abrangendo a expansão comercial, operações e marketing. “Embora nem sempre concordemos em tudo relacionado à gestão operacional, respeitamos as áreas de atuação de cada um.”
“Temos um alinhamento muito claro em relação à filosofia do negócio. Quando a direção e o propósito do negócio estão bem definidos, as divergências e rupturas tendem a ser menores”, diz o filho, que cita vantagens em empreender com o pai.
“O vínculo familiar fortalece a questão cultural, que é a base do nosso negócio, e só traz vantagens. Sabemos que esta é uma parceria que nunca deixaremos de ter. Assim como nunca deixarei de ser filho dele e ele de ser meu pai, continuaremos a conduzir o negócio juntos.”
Respeito
Existem, ainda, os casos de filhos que veem os pais empreendedores, se inspiram, mas preferem abrir negócios em outras áreas, como a Tatiana Pimenta, 43 anos, fundadora da Vittude, plataforma de saúde mental que conecta pacientes a profissionais.
Ela aprendeu a empreender com seu pai, Nero Pimenta, 81 anos, que fundou a Titio’s Lanches em Corumbá (MS), em 1988. Na adolescência, Tatiana trabalhava ao lado dele no negócio, onde aprendeu sobre o valor da dedicação e do esforço.
Tatiana Pimenta e o pai, Nero
Acervo pessoal
“Desde cedo, meu pai ensinou a importância de valorizar o trabalho e a honestidade. Ele sempre dizia que não importava a tarefa, grande ou pequena, ela deveria ser feita com o máximo de empenho e responsabilidade. Esses princípios me guiaram ao longo da vida e se tornaram a base sobre a qual construí minha carreira e meus valores como líder”, afirma.
A relação com o pai também foi uma das motivações para criar a Vittude, em 2016. Quando tomou conhecimento do diagnóstico de câncer de Nero e buscou tratamento por telemedicina para que ele não precisasse se deslocar até São Paulo, não encontrou profissionais. O que vivenciou com o pai se tornou a dor que ela se propôs a resolver – e foi outro ensinamento dele que ajudou a tirar a empresa do papel.
“Meu pai me ensinou sobre a importância de gastar menos do que se ganha, o que me ajudou a desenvolver uma mentalidade de planejamento financeiro desde jovem. Graças a essa orientação, pude construir uma poupança que foi fundamental para o início da Vittude”, diz.
Paternidade
Depois de 22 anos no mercado corporativo, Eliezer Leal, 40, percebeu que queria mais autonomia e liberdade para ter tempo de criar os filhos. Aproveitando a demanda que já recebia de empresas, ele decidiu empreender ao lado da esposa, Talita Matos, fundando a Singuê, consultoria de diversidade, equidade e inclusão que atende marcas como Itaú BBA, Carrefour, Gerdau e Natura.
Eliezer e Talita Leal com os três filhos
Acervo pessoal
“Eram pelo menos 12 horas fora de casa, entre tempo de escritório e deslocamento. Precisei construir um novo modelo. Quando nasceu a primeira filha, decidimos não a deixar na creche em período integral. Queria ficar em casa e vê-la crescer”, conta.
Para gerenciar as demandas, ele acorda antes da família para dar um gás no trabalho. Com foco, trabalha por algumas horas para valer, como em um expediente mais tradicional. Quando precisa de mais silêncio, busca um coworking.
Inspiração
O empreendedor Saulo Rodrigues, 33 anos, só conseguiu se formar em Medicina, em 2015, pela ajuda que recebeu do pai, Abner Rodrigues, que é dono de um negócio de cachorro-quente. “Sempre vi meu pai trabalhando muito, desde quando acorda até dormir, na tentativa de nos oferecer uma qualidade de vida melhor. Hoje eu tenho uma profissão reconhecida graças a esse esforço”.
Saulo Rodrigues, Athos Corgosinho (filho de Saulo) e Abner Rodrigues. Família comanda unidade da Maria Brasileira
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Saulo decidiu empreender como forma de retribuição ao pai. O negócio, uma franquia da rede Maria Brasileira, será familiar, e abrirá as portas neste mês de agosto em Nova Serrana (MG). “Essa retribuição é uma gratidão por tudo que foi feito por mim, pelo meu futuro e pela minha família”, diz Saulo. De acordo com ele, o negócio trará uma renda extra, com o objetivo de diminuir as outras atividades da família – o negócio de cachorro-quente continua ativo.
