Depois de assumir a liderança da empresa familiar aos 28, ela decidiu fundar a própria startup

Ana Júlia Kiss está por trás da Humora, que vende produtos à base de cannabis para o bem-estar e acaba de adquirir um laboratório nos Estados Unidos Ana Júlia Kiss se define como um mix de sonhadora e realizadora. Aos 38 anos, ela já assumiu o cargo de CEO da indústria fundada por seu pai, vendeu o negócio para uma empresa norte-americana, atuou como investidora-anjo e fundou a Humora, startup de produtos à base de cannabis e fitoterápicos que acaba de adquirir o laboratório californiano Nu Bloom Botanicals, em um M&A de valor não revelado.
Com a aquisição, a startup brasileira que tem sede nos Estados Unidos passa a atuar diretamente no mercado norte-americano, com a comercialização de produtos e o fornecimento para outras empresas. O laboratório já era o produtor dos nove itens que a Humora tem no portfólio.
“No Brasil, o mais comum é o óleo de cannabis, que é bom para extrair da planta, mas não é a melhor versão para absorção pelo consumidor. Eu não queria só colocar um rótulo jovem. Encontrei esse fornecedor com nanotecnologia (que permite maior precisão e eficácia), que desenvolve fórmulas para uso propositivo, com fitoterápicos”, aponta Kiss.
A fundadora diz que as formulações foram validadas por médicos brasileiros. O estoque da Humora fica em Miami (EUA) e é preciso ter uma receita médica e autorização da Anvisa para importar os produtos. A startup auxilia na ponte necessária para quem precisa de ajuda na obtenção dos documentos. A entrega é feita por avião e demora entre 7 e 13 dias.
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Segundo o anuário 2024 da Kaya Mind, especialista em dados e insights do setor canábico, cerca de 672 mil pessoas já utilizam derivados da planta para fins medicinais no Brasil, um aumento de 56% em relação ao ano anterior. Com o M&A, a Humora espera faturar R$ 3 milhões em 2025, um salto de 270% em comparação com 2024, quando o faturamento foi de R$ 815 mil.
A ideia para a Humora veio das viagens para fora do país. “Eu sempre estive com o radar ligado para encontrar oportunidades e trazer para o mercado nacional. Ia muito aos Estados Unidos e à Alemanha, em eventos da indústria química, e era inevitável encontrar o mercado da cannabis. Vi que era uma indústria muito masculina, como o que vivi anteriormente, e sei que o filtro feminino foi transformador na minha gestão”, declara.
A experiência de Kiss com uma pessoa próxima que teve sua saúde impactada positivamente pela cannabis foi fundamental para sua visão. Ela não queria apenas criar um produto medicinal, mas algo que fosse acessível e benéfico para o bem-estar geral, ajudando desde a imunidade até o controle dos sintomas de TPM.
Produtos da Humora
Casa Marighella
O legado
A empreendedora brinca que a empresa fundada pelo pai, Adecol, uma indústria química de adesivos, era a irmã mais velha da família. A decisão de cursar administração de empresas veio após crescer acompanhando a operação. “Fui preparada a vida inteira para ser gestora da empresa familiar. A faculdade me preparou para ser a dona do balanço financeiro, do PNL, e eu via no meu pai a visão de empreendedor, a tomada de risco”, relembra.
Ela formou uma dupla com o pai e usou sua formação e o repertório que adquiriu viajando pelo mundo para fazer mudanças na empresa. Kiss assumiu o cargo de CEO aos 28 anos, em 2014, e, em 2017, a indústria foi vendida para a norte-americana H.B. Fuller, momento em que o pai se aposentou.
“Liderei a aquisição e entrei para o mundo corporativo por vontade. Queria passar por um novo ciclo de aprendizado, precisava de novos mentores. Entendemos que era uma maneira de coroar a história do meu pai e dar continuidade para a minha carreira”, conta. Kiss assumiu novas responsabilidades: se a Adecol faturava R$ 55 milhões, agora ela gerenciava R$ 110 milhões apenas no departamento de compras para a América Latina. Ela passou a se questionar sobre a perda de independência e valores do negócio.
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Depois do período de earnout de três anos, deixou a empresa, em fevereiro de 2020. “Fiquei com muita vontade de empreender para o brasileiro, perdi isso na multinacional porque era muito globalizado, mas eu não consegui empreender como eu sabia, no chão de fábrica”, comenta.
Ela tirou um sabático de dois anos e usou o período para conversar com empreendedores, fazer cursos e investir como anjo, com tese de investimento em mulheres e negócios de impacto social. Entre suas sete investidas estão a Roupateca, de economia circular, e a AppJusto, de delivery com taxas mais justas para os entregadores. “Senti falta de trabalhar, sabia que tinha uma potência para a qual eu não estava dando vazão”, afirma. O projeto para a startup surgiu em 2022 e a comercialização teve início no meio de 2023.
A Humora segue bootstrap e Kiss acredita que ainda não chegou a hora da startup captar recursos com investidores externos. “Agora encontramos a nossa tese e vamos apertar o turbo, ficando na trilha que encontramos para potencializar [o crescimento]”, conclui.
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