Como o empreendedorismo se tornou ferramenta de empoderamento para pessoas trans

Pesquisa aponta que 80% das pessoas trans já pensaram em empreender. Para 39%, ser parte da comunidade LGBTQIAP+ é uma oportunidade. Dia da Visibilidade Trans é comemorado nesta quarta-feira (29/1) Seja para fugir de situações de vulnerabilidade social ou para driblar as barreiras de exclusão do mercado de trabalho, o empreendedorismo está no radar da maior parte da população transsexual no Brasil. De acordo com a pesquisa “Um olhar para as pessoas trans no mercado de trabalho”, promovida pela Nhaí, em 2023, 80% das pessoas trans já pensaram em empreender.
Para Raquel Virgínia, fundadora da Nhaí, o número ainda é reflexo do preconceito, que leva pessoas trans a buscarem fontes alternativas de renda. Contudo, a empresária percebe que, cada vez mais, ter o próprio negócio tem se mostrado não apenas uma alternativa, mas uma oportunidade promissora. Georgia Nunes, gerente de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional indica que negócios liderados por pessoas trans frequentemente se tornam referência e inspiração na comunidade LGBTQIAP+.
Em 2024, o chamado Pink Money – termo referente ao poder de compra da comunidade LGBTQIAP+ – foi estimado em R$ 418, 9 bilhões no Brasil, segundo a Out Leadership. De olho no potencial desse mercado, os empreendedores à frente da marca de roupas Cara Gente Cis decidiram apostar em um negócio voltado ao público trans, que vende peças com palavras de ordem e frases afirmativas, como “retificado seja o nosso nome”. “A indústria da moda ainda é inteiramente moldada a corpos cis. Então, ter roupas que denunciem e ocupem um espaço nos parece um bom posicionamento”, diz Jamil Ribeiro, cofundador do Cara Gente Cis.
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Ele diz que o foco das vendas em pessoas trans é uma forma de valorizar o negócio e, ao mesmo tempo, se distanciar do preconceito nas relações comerciais. “As únicas vezes em que o CGC passou por dificuldades de comunicação e assertividade foram com trabalhos de pessoas cis, que nunca estavam dispostas a concordar com o orçamento que oferecíamos. Em contrapartida, todas as pessoas trans que trabalharam com a gente sempre valorizaram nossa produção”, afirma.
Para Raquel Virgínia, buscar o apoio da comunidade LGBTQIAP+ é um caminho recomendado para fortalecer diferentes frentes de negócios liderados por pessoas trans. Maria Eduarda Henriques, mulher trans à frente da marca de joias e caleidoscópios MinaArt, que toca ao lado da filha Helena Sammarone, afirma que, ainda que a passabilidade a tenha ajudado a enfrentar menos desafios, buscar espaços ocupados pela comunidade foi um caminho para evitar a discriminação no trabalho e aumentar as vendas.
“Por exemplo, quando nós expomos em feiras artísticas, buscamos ir a eventos cujo público respeita a diversidade”, aponta Henriques. Além de resultados de venda mais expressivos, a ocupação de espaços aliados tende a evitar situações discriminatórias. “Em um feira, propuseram que continuássemos, mas que minha filha, que é uma mulher cis, ficasse à frente das vendas”, diz.
Para Fernanda Custodio, mulher trans fundadora da TravaTruck, empresa de catering para eventos, lidar com o preconceito de pessoas cis no dia a dia do trabalho ainda é um dos principais desafios. Ela, que começou a empreender depois de enfrentar dificuldades para entrar no mercado de trabalho, diz que a transfobia permeia todos os espaços que frequenta. “Entendi que essa é uma luta constante contra o preconceito inerente do ser humano, então, eu sempre preciso ter um posicionamento político e educado para que eu consiga fazer com que as pessoas me respeitem”, aponta.
Onde estão os empreendedores trans
De acordo com a pesquisa de 2023 da Nhaí, os setores mais buscados por empreendedores trans são moda e beleza (como vestuários, acessórios e cosméticos), gastronomia e cuidados pessoais (como manicure, cabelo e massagem). Segundo Raquel Virgínia, a segmentação nesses eixos não acontece por acaso, sendo reflexo da busca dos empreendedores por espaços com menores tendências de preconceito.
“Além de serem indústrias nas quais pode ser possível entrar com maior rapidez e investimentos menores, são áreas em que pessoas trans tendem a se sentir mais seguras. Ainda que a transfobia exista em qualquer lugar, é mais forte em espaços como de tecnologia, automobilística e financeiro, por exemplo”, indica a fundadora da Nhaí.
Os mesmos segmentos em destaque são percebidos pela Capacitrans, Organização da Sociedade Civil que trabalha a dignidade de pessoas Trans, Travestis, Não Binárias, LGBIs+ em recortes de extremas vulnerabilidades sociais por meio do empreendedorismo no Rio de Janeiro. De acordo com Andrea Brazil, consultora de diversidade e inclusão e idealizadora do projeto, das mais de 400 pessoas que já passaram pelo programa, cerca de 60% empreendem em uma das três áreas.
Para Brazil, além da impressão de menor LGBTfobia, esses mercados contam com uma demanda nichada dentro da comunidade, que busca produtos e serviços pensados para suas necessidades específicas.
Invisibilidade ainda é um desafio
Apesar dos dados mapeados por organizações como o Nhaí sobre o interesse de pessoas trans no empreendedorismo e setores mais buscados, as informações são escassas e não há números oficiais relativos à população trans no Brasil. Em 2021, uma pesquisa com 6 mil pessoas, feita pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB/Unesp) mostrou que 2% da população adulta brasileira é formada por pessoas transgênero ou não-binárias. Em números absolutos, isso significa cerca de 3 milhões. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que seria a primeira a mapear identidade de gênero, tinha previsão de lançamento para o fim do ano passado, mas isso não aconteceu.
Para a fundadora do Capacitrans, a falta de informações precisas sobre pessoas transgênero representa mais um desafio para que a sociedade caminhe em direção à resolução dos preconceitos enfrentados por esses empreendedores.
De acordo com Raquel Virgínia, não mapear a informalidade dificulta o entendimento das razões que levam pessoas trans a não se formalizarem. Para ela, um dos principais impasses burocráticos é a dificuldade de usar o nome social em alguns documentos oficiais. “Se uma pessoa que não tem o nome retificado quer entrar em uma plataforma de delivery, por exemplo, pode acabar esbarrando na necessidade de confrontar seu nome de registro, o que pode desmotivar e afastar essa pessoa”, diz.
Georgia Nunes, do Sebrae, destaca a importância de projetos de fomento ao empreendedorismo direcionados especificamente para o público trans. Para ela, essas iniciativas são fundamentais para reduzir as barreiras históricas e estruturais enfrentadas por essa população no acesso a oportunidades. “Essas iniciativas não apenas promovem a inclusão social, mas também ajudam a capacitar e dar maior autonomia às pessoas trans, permitindo que explorem seu potencial, desenvolvam suas habilidades e contribuam para a economia de forma autônoma e sustentável”, aponta Nunes.
Para a cofundadora e criadora das peças da Mina Art Maria Eduarda Henriques, a educação profissional a o entendimento da importância de procurar ajuda para fazer o negócio crescer são fundamentais para o sucesso de qualquer empreendimento, mas sobretudo para aqueles liderados por pessoas trans, que podem enfrentar mais desafios, mas, ao mesmo tempo, podem buscar diferenciais competitivos cada vez mais relevantes.
“A criatividade e a resiliência, cultivadas a partir dos desafios enfrentados por essa população, contribuem para a formação de lideranças mais flexíveis e capazes de desenvolver soluções inovadoras, adaptando-se com eficácia às dinâmicas do mercado. A diversidade, portanto, é fundamental para fomentar a inovação, que, por sua vez, amplia a competitividade dos negócios”, conclui Nunes.
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