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Busca por raízes étnicas leva artista plástica a empreender com ateliê de cerâmica

Busca por raízes étnicas leva artista plástica a empreender com ateliê de cerâmica


Gabriella Marinho, do Ateliê Kianda, produz de 10 a 15 peças por mês, com o barro da própria comunidade, em São Gonçalo A artista plástica Gabriella Marinho, 31 anos, encontrou na cerâmica uma forma de expressar sua identidade e suas raízes. Nascida e criada no Jardim Catarina, em São Gonçalo (RJ), é ali que ela ainda reside e empreende. Coleta o barro vermelho local para criar suas obras, que unem a arte da produção às características de sua terra e o resgate da ancestralidade.
Jornalista de formação, Marinho trabalhou por cerca de dez anos com jornalismo cultural, no terceiro setor, com passagens por organizações como a Anistia Internacional.
Em 2016, a cerâmica entrou definitivamente em sua vida. Desde então, o Ateliê Kianda — nome inspirado na sereia Kianda, divindade das águas do rio Kwanza, em Angola — se tornou o coração de sua produção artística.
“Minha trajetória nas artes começa na infância. Minha família sempre teve uma relação forte com a cultura afro e, como cresci rodeada por isso, mesmo que timidamente, minhas práticas artísticas foram se estabelecendo através do desenho”, relembra.
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Trabalho conectado à terra e às raízes
O barro, material adotado para representar suas origens, é transformado em vasos, esculturas e instalações suspensas, muitas vezes complementadas por pinturas com geotinta. “Meu trabalho aborda as diferentes possibilidades que a terra tem a oferecer, seja literal ou metaforicamente”, conta Marinho, que usa a cerâmica “para refletir a existência enquanto mulher preta e brasileira”.
A comunidade em que a artista vive tem forte influência em sua arte. “O território que nasci e vivo tem completa ligação com minha produção artística. Coleto e uso o barro vermelho do bairro para produzir meus trabalhos. É uma forma de reivindicar esse território e levá-lo para os diferentes lugares que a arte me proporciona”, diz, citando o alcance a localidades como Bahia, São Paulo e até Argentina.
Jornada com muitos desafios
Manter um ateliê de cerâmica exige uma gestão cuidadosa, responsabilidades que Marinho assumiu sozinha durante quase dez anos. “Os desafios logísticos e financeiros são muitos, levando em consideração que abrir um ateliê de cerâmica não é algo barato. Como estratégia de gestão, busco direcionar muita atenção ao cuidado com a integridade física das obras, já que cerâmica é algo frágil”, cita.
A tática faz diferença na manutenção do estoque e no fluxo de entregas. Ela também busca reinvestir parte dos valores arrecadados com as vendas, atualizando ferramentas e material, e no conhecimento de técnicas.
Há outros desafios, que vão muito além dos obstáculos do dia a dia, pelo fato de ser uma mulher negra e empreendedora.
“Definitivamente, o racismo é o principal deles. O racismo ramifica outras muitas mazelas que nos atrasam: instabilidade financeira, dificuldade de acesso a diferentes espaços, subestimação da nossa capacidade intelectual e estratégica… Essas são as que sinto serem pedras maiores nos nossos caminhos, mas existem outras”, afirma.
Isso sem contar com situações pontuais, que afetam sua produção, como quando teve de lidar com perda do forno de cerâmica e de peças durante a pandemia. Na ocasião, decidiu fazer uma campanha online para adquirir um novo equipamento.
“Foi um sucesso. Esse momento me ensinou que nós, artistas e empreendedores, precisamos dialogar diretamente com nosso público, trazendo não só os resultados finais, mas também nossos processos, vulnerabilidades e soluções para essas vulnerabilidades”, compartilha.
Para ela, quando o público se sente parte do processo, valoriza muito mais o produto final. Atualmente, a artista divide seu tempo entre a produção e a gestão do ateliê, que envolve não apenas a criação, mas também a comercialização de suas peças.
Reconhecimento e expansão
Parte das vendas ocorre em feiras e mostras, mas ela também recorre a lojas online, redes sociais e parcerias com galerias e estúdios de design, além da comercialização no próprio ateliê. “Meu público é muito diverso: tem desde mulheres negras de diferentes faixas etárias até colecionadores de arte e instituições privadas”, explica a empreendedora.
A trajetória profissional já rendeu importantes conquistas, como a indicação ao PIPA Prize, criado para ser o maior prêmio de arte contemporânea do Brasil, e a participação em residências artísticas internacionais.
“A arte me levou para lugares como Taiwan, Argentina e Angola. Essas experiências impactaram não só a visibilidade do meu trabalho, mas também como eu vejo meus processos artísticos”, reflete.
Com um número médio de 10 a 15 peças produzidas por mês, de diferentes tamanhos e pesos, Marinho atende a diferentes nichos de mercado. O preço das obras parte de menos de R$ 100, e há peças que já foram vendidas no circuito internacional de arte.
Com o nome em ascensão, quando pensa no futuro, a artista quer ampliar a presença de suas obras no mercado, sobretudo ao estabelecer parcerias fixas, e ter produção de coleções sazonais. “Pretendo adentrar cada vez mais no universo do design e impulsionar minha presença no Nordeste do Brasil, em Angola, nos Estados Unidos e na Europa”, revela.
Há planos que vão além do comercial: Gabriella Marinho sonha receber aporte para transformar o Ateliê Kianda no Instituto Kianda, a fim de expandir suas atividades para além da produção artística.
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