Entrar

Notícias

Ultimas Notícias
Bedy Yang, da 500 Global: ‘O Brasil vai continuar sendo um dos melhores mercados da América Latina para investimento’

Bedy Yang, da 500 Global: ‘O Brasil vai continuar sendo um dos melhores mercados da América Latina para investimento’


Executiva revela sua visão sobre o ecossistema brasileiro e os próximos rumos do mercado A executiva brasileira Bedy Yang acumula exemplos de como o networking pode abrir diferentes portas. Ao construir uma rede de empreendedores e investidores para conectar o ecossistema nacional de startups ao do Vale do Silício, nos Estados Unidos, ela se aproximou da 500 Global, então chamada 500 Startups, uma das maiores aceleradoras e gestoras de venture capital (VC) da região.
Na companhia desde 2011, vem explorando o poder das relações. O portfólio de mais de 2,9 mil empresas investidas ao redor do mundo, segundo ela, gera boa parte das novas oportunidades de investimento; o desafio, nesse caso, é sair da bolha, em prol da diversidade.
De olho no potencial latino-americano, a 500 Global anunciou neste ano um novo fundo para investir em startups da região – até agora, cerca de 300 receberam aportes da gestora, das quais 43 são brasileiras. Embora não revele o montante a ser captado, ela diz que há interesse em ver negócios brasileiros na lista. “O país vai continuar sendo um dos melhores mercados da América Latina para investimento”, diz, em entrevista a PEGN.
A seguir, Yang revela sua visão sobre o ecossistema brasileiro e os próximos rumos do mercado. Também sugere caminhos para que outras mulheres tirem melhor proveito da sua rede de contatos: “Mesmo sem sentir que está 100% pronta para aquilo, é importante ter exposição constante”.
Esta entrevista foi publicada originalmente na edição de março da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios.
Como começou a sua carreira no mercado de venture capital e qual é o seu papel na 500 Global hoje?
Eu queria muito ajudar os empreendedores e as empreendedoras do Brasil a acessar o mercado do Vale do Silício. Criei uma organização chamada Brazil Innovators para ajudar nisso e trazer educação, porque os mercados eram muito isolados em 2009, 2010. Comecei a criar uma rede muito forte entre o Brasil e os fundos que estavam pensando em expandir fora do escopo do Vale do Silício. A 500 Global [então 500 Startups] queria fazer investimento internacional, e eu tinha um conhecimento muito profundo do Brasil. As primeiras oportunidades que eu trouxe para dentro da gestora foram a Viva Real [do mercado imobiliário] e a Conta Azul [de software de gestão de negócios]. Houve uma compatibilidade muito grande entre esse fundo e o que eu tinha de visão, então consegui ingressar no mercado de venture. É um mercado muito difícil de entrar, especialmente no Vale do Silício, e muitas vezes a forma de fazer isso é ter acesso aos melhores empreendedores. No final, nosso negócio é sobre como trazer capital, serviço, mentoria e rede para os empreendedores terem sucesso o mais rápido possível.
>> As inscrições para o 100 Startups to Watch 2024 estão abertas! Acesse o site e veja como participar.
Leia também
O que mudou na empresa na última década e nos últimos três anos, desde que trocou de nome e passou a assinar cheques maiores?
O mercado mudou completamente. Quando começamos, era uma loucura ter um fundo do Vale de Silício investindo fora de lá. Hoje, acho que todo mundo está tentando entender como se faz uma estratégia mais internacional. A segunda grande mudança foi nossa maturidade. Quando iniciamos, fizemos um investimento aqui, outro ali, e ficamos felizes. O que percebemos é que deveríamos montar um portfólio grande, de pelo menos 30 a 40 empresas, em cada um dos mercados relevantes em que atuamos. Fomos ganhando credibilidade para criar uma organização cada vez mais global, mas com expressão em cada uma das regiões.
A atuação da 500 como investidora se sobressaiu frente à de aceleradora? Qual é o papel desse braço hoje?
A aceleradora é uma das nossas estratégias e somos muito conhecidos por ela, então usamos isso como uma alavanca, mas atualmente nos posicionamos como um multistage fund. Quer dizer que fazemos aporte de capital semente, mas também temos fundos para startups em crescimento. Nosso portfólio tem mais de 35 unicórnios, e assim podemos trabalhar com essas startups até quase o final dos seus ciclos de investimento.
A 500 chegou a ter uma operação no Brasil por alguns anos. Por que a presença foi reduzida?
Já não tenho tanta certeza se faz sentido ter a operação no país em comparação com alguns mercados mais emergentes que precisam de muita mentoria. O que percebemos é que as empresas brasileiras preferem vir para o Vale do Silício, ser aceleradas e voltar. A distância também é grande: toda vez que eu tinha de levar os mentores [para o Brasil], não tinha voo direto, era extremamente caro, enquanto a distância para o México [onde hoje se concentra a operação latino-americana da gestora] é de quatro horas de voo. Não conseguimos trazer a aceleração para o Brasil, mas ganhamos trazendo muitas empresas boas para o Vale.
Como vocês encaram o Brasil e a América Latina? Ela é vista como um grande mercado, com características agrupadas, ou vocês notam diferenças significativas entre cada um dos países?
O Brasil é bem específico, a começar pela língua, e eu acho muito difícil entrar no mercado brasileiro sem ser uma empresa nacional. O que eu vejo como tendência é que muitos fundos que começaram com o Brasil passaram a ampliar essa presença para a América Latina. Existem diferenças grandes, mas a América Latina é vista de uma forma mais integrada, assim como as regiões do Oriente Médio e do Sudeste Asiático, apesar das peculiaridades.
OPORTUNIDADES – Bedy Yang diz que a 500 Global está captando startups brasileiras para um novo fundo de investimentos focado na América Latina
Vanessa Murachovsky
Como o Brasil se assemelha e se diferencia em relação aos outros mercados?
Além da questão do idioma, o mercado brasileiro é grande o suficiente para não precisar fazer uma rodada de financiamento e conquistar outros dois ou três. O Brasil, ou mesmo a Região Sudeste, já dá volume e densidade para o que você tem de fazer. O Nubank [instituição financeira] não precisa vir para os EUA, para o México, para ser o que é. Ele pode ser o Nubank no Brasil. O equivalente já é um pouquinho mais desafiador para o restante da América Latina. Talvez o México consiga, mas não na mesma intensidade do Brasil. Mas, se sair da Colômbia, do Peru, do Chile, tem de entender que fez um piloto e que o mercado endereçável não pode ser apenas o próprio país, e aí entram as diferenças e as dificuldades de fazer negócio de um lugar para outro.
A 500 anunciou em janeiro o lançamento de um novo fundo para investir em startups da América Latina. Em que fase está a captação e quais são os planos para ele?
Seguimos captando. Para nós, é muito importante que as empresas brasileiras apliquem para conseguir o nosso funding, e estamos investindo bastante na nossa plataforma da América Latina.
Vocês têm alguma ambição específica de um valor a ser atingido com esse fundo, ou de quantas investidas vocês pretendem atingir?
Não abrimos valores. Normalmente, para cada fundo, montamos um portfólio mais diversificado. Muitos fundos fazem 20 investimentos, nós fazemos entre 50 e 100. Depende muito da qualidade do deal flow [fluxo de oportunidades de investimentos] e no que acabamos investindo. Agora estamos com uma faixa entre US$ 80 mil e US$ 300 mil, acima do que estávamos acostumados a fazer.
Vocês pretendem buscar ativamente empresas brasileiras ou a aplicação depende do interesse delas?
Vai ter uma série de eventos grandes no Brasil, como South Summit e Web Summit, e sempre acabamos tendo uma certa representação da equipe. O que ajuda muito é o portfólio atual. Eles [os empreendedores] trazem outras empresas para dentro – são uma das melhores fontes de investimento e de deal flow que temos.
O ecossistema brasileiro amadureceu nos últimos anos, com agentes atuando em estágios distintos, unicórnios, empreendedores de 2ª jornada. Como você avalia esse mercado hoje, para além da tese da 500, e qual é a próxima etapa de amadurecimento?
Fico muito feliz de ter conseguido participar tão ativamente desse crescimento. São poucos os mercados que conseguiram criar tantas empresas, e cada vez mais eu vejo aberturas de capital, o que, da perspectiva do investidor, indica o ponto de entrada e de saída. Acho que isso é um excelente sinal, e vemos investidores nos Estados Unidos interessados de uma forma mais institucional em entrar e investir no Brasil. Acho que o país vai continuar sendo um dos melhores mercados da América Latina para investimento. Passamos pela pandemia de covid-19, a taxa de juros subiu muito nos Estados Unidos, as pessoas não queriam investir tanto em startups. O Brasil passa por crises e crises e continua com o ambiente de tecnologia um pouco isolado dessas dificuldades políticas ou de crises mundiais.
Mesmo com a retomada de investimentos, após o “inverno” do ecossistema, continuamos vendo demissões e reestruturações. Como isso afeta equipes e empreendedores? As pessoas ficam mais tensas e cautelosas?
Na verdade, para o investimento, é sempre melhor quando tem menos capital, porque não fica tão caro, especialmente se ele está institucionalizado. Esse corte que estamos passando não é uma exclusividade brasileira e traz uma certa maturidade. Entramos num momento em que é preciso achar um ponto de equilíbrio entre o alto crescimento a qualquer custo e os resultados que você consegue gerar de forma consistente. Mas eu não acho que isso afete o volume e a qualidade dos empreendedores. O capital de risco no Brasil e na América Latina teve esse hype, mas vai continuar criando empresas de bastante valor agregado. Ainda tem muita ineficiência em várias cadeias em que a tecnologia pode ser um bom instrumento.
EXEMPLO DELAS – Para Bedy Yang, “é importante que mulheres virem referência e criem cases de sucesso para que as pessoas não pensem que é impossível [receber investimento]”
Vanessa Murachovsky
Apesar de todos os avanços nos últimos anos, o ecossistema ainda caminha lentamente em questões de diversidade. Como a 500 inclui essa pauta na sua tese?
Não temos uma cota, mas uma coisa que fazemos muito é garantir que a equipe que toma as decisões tenha diversidade em vários aspectos, seja de gênero, seja de nacionalidade, porque as pessoas têm visões e ideias diferentes. Gosto de falar com gente um pouco mais jovem também, porque a adoção de tecnologia é diferente de alguém da minha idade. Uma coisa que eu faço é sempre perguntar sobre a composição do nosso portfólio e olhar a lista antes de fazer uma aprovação de investimento. Se estiver faltando algum tipo de diversidade, intensificamos as entrevistas. Quando tem muita coisa acontecendo, você não faz essa busca ativa, não vai até onde as pessoas [que geralmente encontramos] não costumam estar, especialmente na posição que estamos na 500. Recebemos muita demanda pelo nosso investimento.
Como mulher e investidora, o que você acha que ainda precisa mudar para aumentar a presença feminina nesse mercado?
Nós nos damos muito desconto. Achamos que não merecemos, que ainda não estamos preparadas para receber um investimento de um fundo. Tem um componente muito forte de rede de apoio. É importante que mulheres virem referência e criem casos de sucesso para que as pessoas não pensem que é impossível.
O networking é uma ferramenta importante para todo empreendedor, mas em especial para as mulheres. Você tem alguma estratégia que indicaria para fundadoras?
Para mim, o mais importante é aparecer. Tem oportunidade de fazer networking? Vai. Os investidores estão ali? Vai. Muitas mulheres falam não antes mesmo que as oportunidades apareçam. Mesmo sem sentir que está totalmente pronta para aquilo, é importante ter essa exposição constante.
As mulheres que chegam ao ecossistema ainda têm questões a enfrentar, do viés inconsciente de investidores até casos de assédio. A própria 500 Global viveu um episódio emblemático, com a saída de um dos fundadores devido a acusações de assédio sexual, há sete anos. Como empresas podem se tornar mais ativas e vigilantes quanto a esse problema?
Na aceleradora, falamos muito de ESG [sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa] e temos muitos instrumentos para trazer a questão. Muitas vezes, a dificuldade é não ter um veículo para você trazer essas dificuldades. E eu acho que a comunidade ajuda muito, [é importante] ter cada vez mais instrumentos para que as pessoas possam se expressar sobre o que é inibido dentro do mercado.
Como você avalia o cenário de investimentos para o ecossistema em 2024?
Vem mais dinheiro para o mercado de venture. Lá de cima, dos fundos de pensão, das doações das universidades, de onde vem a grande quantidade de capital. Cada vez mais, [esses agentes] estão observando como podem alocar parte do investimento em venture capital. Vemos cada vez mais fundos de fundos [carteiras que aplicam em cotas de outros fundos], que estão buscando novos rostos, e agora está vindo uma geração de investidores e investidoras. Isso quer dizer que vai ter mais dinheiro para fluir para a inovação.
Quais são os setores mais saturados e os menos explorados no momento? Tem algum palpite sobre as oportunidades no Brasil?
Tem um mercado que ainda tem muita oportunidade, mas não está tão bem explorado, que é o de agricultura. Fizemos um investimento de bastante sucesso no Sudeste Asiático em uma startup que otimiza a produção de peixes, e eles fizeram uma rodada de centenas de milhões de dólares. Com a base que o Brasil tem, poderíamos ser exemplo para o mundo. A parte financeira continua com lacunas, e vamos continuar olhando e investindo em fintechs no Brasil e na América Latina. Quando você olha a cauda longa [focar muitos mercados com pouca demanda, em vez de poucos com muita demanda], vê muitas empresas SaaS [software as a service], de educação. Hoje, quase todas as startups que eu vejo têm uma equipe capacitada em análise de dados para otimizar os processos e avaliar como a inteligência artificial vai influenciar o que eles estão fazendo. IA vai entrar em tudo e tem uma janela de oportunidade nos próximos anos para novos players entrarem.
Há alguma empresa ou tendência em que você queria ter investido e não investiu?
Como investimos em muitas empresas, acho que não tem nenhuma startup em que gostaria de ter investido e não fizemos [o aporte]. Tem uma indústria que eu sempre pauso por um tempo, mas continuo investindo, que é a de saúde. Todos nós vamos viver mais. Isso significa que vamos ter problemas de saúde. Vejo como uma excelente oportunidade, especialmente se você expandir para uma forma menos tradicional. Vi investimentos interessantes nos EUA em saúde da mulher, em temas como fertilidade, maternidade, menopausa. Tem muitas oportunidades, especialmente se ampliar o escopo para [o mercado de] bem-estar.

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *