Apagão em SP: bares e restaurantes relatam prejuízos com perda de insumos e operação reduzida

Abrasel SP estima que cerca de 50% estabelecimentos tenham sido afetados de alguma forma, com perdas a partir de R$ 10 mil para cada empreendimento Bares e restaurantes estão entre os mais afetados pelo apagão que começou na noite de sexta-feira (11/10), depois de uma tempestade que atingiu a Grande São Paulo. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), só a capital paulista tem cerca de 155 mil estabelecimentos do tipo. A estimativa é que cerca de 50% deles tenham sido afetados pela falta de energia, com perda mínima de cerca de R$ 10 mil por empreendimento. Nesta terça-feira (15/10), a entidade pretende entrar com uma ação contra a Enel Distribuição São Paulo, exigindo que a concessionária indenize os lesados.
“A totalização do valor do prejuízo é difícil de ser calculada porque cada estabelecimento perde uma maneira. Alguns negócios perdem mercadoria, enquanto outros perdem em vendas não realizadas. Da mesma forma, alguns conseguem operar parcialmente, enquanto outros precisam parar as atividades”, diz Percival Maricato , advogado e diretor institucional da AbraselSP, em entrevista a PEGN. A ação coletiva vai requerer indenização por dano financeiro e moral para os associados. “O dano moral pleiteado pela entidade é no valor aproximado de R$ 20 mil por restaurante ou bar, e o dano financeiro será calculado por cada estabelecimento e pode chegar a R$ 50 mil”, diz Maricato.
A tempestade da noite de sexta, que veio acompanhada de ventos acima de 100km/h, interrompeu o fornecimento de energia elétrica no estado de São Paulo e atingiu mais de 2 milhões de pessoas. A última informação da Enel é que até as 11h desta segunda-feira (14/10), a energia havia sido restabelecida para mais de 1,6 milhão. Cerca de 430 mil clientes ainda aguardavam o retorno do serviço, 280 mil deles na capital.
“Tínhamos uma festa temática com reserva de pelo menos 300 pessoas”, diz o fundador do bar Kombuca, David Freire, 34 anos, sobre a noite de 11 de outubro. “De alguma forma tivemos ‘sorte’ porque [quando o fornecimento de energia foi interrompido] ainda não tínhamos um público tão grande, o que seria um risco maior para as pessoas. Temos um gerador que consegue manter uma operação mínima, que usamos para encerrar as comandas e finalizar a operação no dia, ainda que com uma dificuldade do sinal de internet para conseguir receber pagamentos em cartão”, relata o empreendedor.
Durante o dia, o espaço do bar funciona como um lava-rápido, que também não conseguiu operar. A energia elétrica voltou ao local por volta das 23h de sábado, quando estava fechado.
“Entre os prejuízos estão as lâmpadas queimadas. Com o gerador consegui manter algumas geladeiras ligadas, e coloquei os insumos mais caros refrigerados. Tive que escolher o que salvar, e acabei perdendo as hortaliças, cerca de R$ 500”, diz Freire. “O maior problema não foi perder materiais, mas paralisar a operação na sexta-feira e no sábado, que são os dias de maior movimento.”
Sem os 1 mil clientes previstos para o fim de semana, o estabelecimento estima uma perda de R$ 25 mil no faturamento. O Kombuca foi aberto novamente no domingo, com um público de cerca de 170 pessoas — metade do previsto. “Ainda temos o desafio de que muitos funcionários estão sem energia em casa, então não conseguimos entrar em contato pelo celular para combinar os turnos de trabalho”, diz.
Saiba mais
O empreendedor está analisando quais medidas pode tomar e se buscará uma ação legal. “Como empresários, estamos sempre aprendendo formas de preparar o nosso negócio. Preciso avaliar se vale a pena investir tempo e recursos em um advogado ou se prefiro gastar essa energia em aprimorar o meu estabelecimento para momentos como esse, comprando um novo gerador, por exemplo. Provavelmente vou preferir melhorar meu negócio para não ser tão impactado por eventos externos.”
Incerteza da volta
A dark kitchen Feijoada Brasileira, que completou quatro anos no mês passado, foi outra afetada. Com sede no bairro de Perdizes, zona oeste da capital, o negócio atende apenas por delivery durante o dia, e havia encerrado as operações por volta das 17h da última sexta-feira. Então, o local estava vazio quando a tempestade começou.
“Acabou a energia elétrica na minha casa, então entrei em contato com o zelador do prédio do lado para saber se estava com luz, e também tinha acabado. Fiquei preocupado por tudo que estava na geladeira, mas também na expectativa de que a energia poderia voltar”, diz o Victor Piva, 39 anos. Às 5h do dia seguinte, ele recebeu uma mensagem que dizia que a energia elétrica não havia voltado.
“Corri para o local para tentar salvar os meus insumos e ver o que era preciso fazer”, diz o empreendedor, que comprou 52 sacos de gelo para auxiliar no refrigeramento dos produtos — o gasto total foi de mais de R$ 800. Também alugou um gerador pelo período mínimo de três dias, por R$ 900.
O gerador, porém, só conseguiu alimentar um freezer e uma máquina seladora das marmitas. “No sábado, trabalhamos sem luz na cozinha e com um calor imenso. Tivemos que usar a lanterna do celular para iluminar o espaço. Foi muito difícil”, diz o empreendedor. A empresa conseguiu entregar 80 pedidos no dia. Em um sábado de operação normal, o número seria de 200.
A empresa conseguiu salvar parte dos insumos, mas teve de jogar fora uma parcela da produção. Foram perdidos 10 kg de tilápia, 15 kg de frango, 10 kg de coxa com sobrecoxa, 300 sobremesas à base de leite e 150 garrafinhas de caipirinha. O prejuízo ficou em torno de R$ 10 mil em insumos, e outros R$ 10 mil pela diminuição dos pedidos em plataformas de delivery,
Segundo Piva, o estabelecimento ainda está “juntando os cacos” para normalizar a operação. A energia elétrica voltou no sábado à noite, mas ainda é preciso organizar o espaço e fazer as contas para entender os próximos passos. “Pretendemos tomar uma medida legal, apesar de sabermos que não dará em nada”, afirma. “A pior parte foi a incerteza de não saber quando a energia voltaria. Não conseguimos ter um prazo concreto, já que toda hora eles [a Enel] aumentavam o período de espera. Não sabíamos se tinhamos que comprar mais coisas ou se era melhor aguardar. Ficamos no escuro também sem saber o que aconteceria.”
Desabafos nas redes sociais
Empreendedores de diferentes regiões de São Paulo utilizaram as redes sociais para desabafar sobre a falta de energia elétrica em seus estabelecimentos. Vivianne Wakuda, da Autêntica Confeitaria Yogashi, compartilhou uma publicação sobre a situação. “Devastada. Essa é a palavra”, escreveu em sua página no Instagram na manhã desta segunda-feira. “Força a todos os colegas de trabalho que seguem sem luz ainda.”
Com sede em Pinheiros, a confeitaria ficou fechada durante todo o fim de semana — momento em que o faturamento é o mais alto. A empreendedora estima que o negócio tenha tido prejuízo de R$ 40 mil a R$ 50 mil, somando insumos perdidos e falta de vendas.
Em entrevista a PEGN, a empreendedora conta que a energia só voltou ao seu estabelecimento hoje às 11h30. “Assim que a luz caiu, comprei diversos sacos de gelo para manter os meus produtos resfriados, já que eles são muito perecíveis. No dia seguinte, recebi mensagens dizendo que a energia voltaria ainda no sábado, mas não retornou”, afirma. “Se eu soubesse que ficaria todo esse tempo sem energia elétrica, teria tomado outras providências.”
A empreendedora estima que poderia ter salvado 80% dos insumos perdidos, caso tivesse alugado uma geladeira para poder resfriar os seus produtos. Ainda assim, ela avalia como positiva a ajuda que recebeu da comunidade. “Conforme a luz foi voltando, as pessoas me ofereceram a mão e guardaram parte dos meus insumos que ainda estavam congelados. Os meus colaboradores também foram super parceiros durante este período.”
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Já o chef Ricardo Lapeyre, do restaurante Le Bulô, localizado no Itaim Bibi, compartilhou no domingo que optou por fazer um churrasco na calçada após ficar sem luz. “Colocamos sacos e sacos de gelo para manter a temperatura das nossas geladeiras e reduzir as perdas. Hoje, resolvemos encarar o problema com bom humor e um churrasco na calçada! Saiu lula, polvo, lagostim, vinho e cerveja – para comer de pé ou sentado dentro do salão. Obrigado a todos que vieram! Quem sabe esse churrasco não vira tradição?”, escreveu.
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