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Antes ‘barrados’, brechós ganham espaço em shopping centers brasileiros

Antes ‘barrados’, brechós ganham espaço em shopping centers brasileiros


Marcas que já levaram ‘não’ de shopping center crescem e forçam adaptações em regras tradicionais de centros comerciais Alvo de desconfiança no passado, lojas de itens de segunda mão, conhecidas como “second hand”, ou “brechós”, passaram a compor a paisagem em shopping centers nos últimos anos. Marcas como Arena Baby, Peça Rara e Troc, da Arezzo&Co, têm ganhado espaço, competindo com o varejo tradicional, atraindo um novo perfil de público e obrigando os centros comerciais a repensar o modelo de operação. Alguns aprendizados já têm sido contabilizados, como a composição do mix, formado na maioria das vezes por itens levados pelos próprios clientes, e, claro, as estratégias para fazer a conta fechar.
Um dos fatores que levou os shopping centers a voltarem os olhos para os brechós nos últimos anos foi a necessidade de acompanhar o comportamento do consumidor, na visão de Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da Gouvêa Malls, empresa da Gouvêa Ecosystem. “Shopping precisa agregar novidade e compreender a evolução do consumo. O consumo de moda [atualmente] não tem como não passar pela questão da moda sustentável”, afirma.
A Troc, que pertence ao grupo Arezzo&Co, “tateou” o terreno algumas vezes antes de se instalar de vez em um shopping center. Ainda em 2021, a fundadora, Luanna Toniolo, abriu a primeira loja pop-up no Shopping Batel, em Curitiba (PR). “Sentimos a necessidade de fazer a verticalização de uma marca digital, trazendo toda a materialização do que construímos online”, conta.
Ela mudou de andar e de espaço algumas vezes, de acordo com a disponibilidade do mall, até que se firmou no primeiro semestre do ano passado, como uma loja fixa.
Loja da Troc no shopping Batel, em Curitiba
Divulgação
No começo, a loja chegava a ter o visual merchandising trocado duas vezes por dia, devido à demanda de venda e para testar como seria a aceitação dos clientes. Com o tempo, foi criando um público fiel, que ia ao shopping tendo a loja como destino. A empreendedora conta que investiu em uma fachada chamativa, com um portal, que buscasse mostrar uma proposta diferente do que já era oferecido no local. “Mesmo que o cliente não comprasse nada naquele momento, ele veria a marca e entraria no site”, diz.
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De acordo com Toniolo, as outras varejistas que operam no shopping, frequentado majoritariamente pela alta renda local, não veem a Troc como uma concorrente. “Nunca nos colocamos dessa forma, mas sempre estamos dispostos a conversar, se for necessário”, conta.
Já a rede Peça Rara, natural de Brasília, foi “barrada” quando tentou abrir sua primeira operação em shopping, no Conjunto Nacional, na capital federal, por volta de 2018.
Fachada da Peça Rara no shopping Conjunto Nacional, em Brasília
Divulgação
“Sendo uma marca brasiliense, e já com um tempo de mercado, entrei em contato com o pessoal e demonstrei interesse de colocar uma loja lá. Fomos muito bem recebidos, mas com muita educação e ética ouvimos um “não”. O shopping não tinha interesse de ter um brechó no seu escopo”, conta a fundadora, Bruna Vasconi.
Em 2020, com a pandemia, diversas lojas fecharam as portas em shopping centers e o consumo de segunda mão passou a crescer em todo o mundo. Com isso, o telefone de Vasconi tocou com uma proposta para entrar no centro comercial. Hoje, a Peça Rara tem pouco mais de 100 lojas abertas, sendo quatro em shopping centers – duas em Brasília, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro.
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Valorização da marca e horário estendido ajudam, mas custos pesam
Nos últimos meses, a rede de itens para bebês Arena Baby abriu duas lojas em shopping centers – as primeiras desde que a marca foi fundada, em 2015. A primeira unidade passou a funcionar no shopping Boa Vista, em São Paulo, e a segunda, no shopping Bela Vista, em Salvador. “Fizemos um trabalho bacana de vitrinismo com uma arquiteta, porque é um ponto diferente, mas o modelo continua o mesmo”, diz o sócio-fundador, Flavio Thenório.
Atualmente, a Arena Baby tem 51 lojas abertas, e mais dez que devem ser inauguradas nos próximos meses. A expectativa de Thenório é que operações em shopping centers representem 20% da rede até o fim do ano, quando ele espera bater 100 franquias negociadas. “O modelo de negócio leva tráfego de pessoas para os shoppings, então se torna interessante para eles também. Além disso, eleva um pouco o padrão da marca, ajuda a valorizar as lojas de rua”, comenta.
Loja da Arena Baby em shopping center: formato deve representar 20% das inaugurações da franquia até o fim do ano
Divulgação
De acordo com o empreendedor, a demanda de abertura veio dos próprios franqueados. A marca fez um estudo de viabilidade e entendeu que poderia ter vantagens de levar o formato para os centros comerciais. “Exige um investimento maior, tende a custar entre 20% e 30% a mais quando é shopping”, diz. No entanto, de acordo com ele, o fluxo maior de clientes e o horário estendido de funcionamento têm ajudado a equilibrar.
Bruna Vasconi, da Peça Rara, também acredita que os custos ainda sejam um entrave para uma expansão mais acelerada em shopping centers. Além disso, há o desafio de formação de mix, que é totalmente composto pelos próprios clientes. “As negociações ainda são difíceis, o custo de ocupação ainda é maior do que em lojas de rua, no geral. Tivemos que recusar alguns convites, mas podemos acabar cedendo a alguns”, diz.
Além dos desafios de construir vitrine e garantir margem, Marinho, da Gouvêa Malls, diz que a dificuldade dos brechós em shopping centers é atrair não apenas consumidores, mas fornecedores.
“O desafio é a construção de estoque, atrair compradores na mesma proporção que se atrai vendedores de peças. Construir estoque de loja com peças novas é uma coisa. Quando se depende de fornecedores pessoas físicas é diferente, não tem uma grade de produtos. Possivelmente vai ter mais dificuldade para ter um equilíbrio na composição do mix. Se o cliente não achar nada que interessa, não volta”, diz.
Luanna Toniolo, da Troc, conta que a marca vem testando lojas pop-up em outras cidades, e que estuda cuidadosamente cada proposta de abertura. “Somos abordados o tempo inteiro”, diz.
No momento, a empresa tem iniciado um projeto-piloto com brechós independentes para que eles ajudem a trabalhar a marca Troc, com algumas peças da empresa, mas a empreendedora não descarta seguir o caminho do grupo no qual a startup está inserida e abrir franquias no futuro. “Quem está à frente do negócio precisa ser apaixonado, precisa ser dono, mas ainda não chegamos no modelo ideal”, diz.
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Shoppings se adaptam para que negócios funcionem
O modelo de negócio dos brechós pode exigir que shopping centers revisitem seus formatos de cobrança, na visão de Marinho. “Provavelmente o modelo baseado em receita de venda, que tem um aluguel percentual, ficará difícil de se calcular”, conta. Na maioria desses negócios, o fornecedor pode gerar créditos para trocar por outros itens, o que não necessariamente gera uma receita direta relevante.
Além disso, os shoppings precisam rever questões de circulação com mercadoria em caixas, por exemplo – algo que é limitado às docas e a horários específicos na maioria dos centros de compra. PEGN contatou a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) para entender como os malls têm se adaptado e se há um levantamento de quantos brechós já estão nos centros de compra, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto.
A loja da Peça Rara no shopping Morumbi Town, em São Paulo, contou com uma adaptação para receber os fornecedores, de acordo com Vasconi. A loja está localizada perto dos elevadores do mall, que dão acesso direto à garagem.
“Tivemos uma concessão interessante do shopping para que nossos fornecedores pudessem transitar com caixas. Sem isso, não conseguiríamos chegar nesses lugares. Por mais que a maioria das pessoas leve uma ou duas sacolas, tem gente que vai com caixas, malas e precisam ir no horário comercial”, diz. A rede também trabalha com móveis, mas a categoria não se aplica a lojas de shoppings.
Economia e curadoria impulsionam mercado
Ao menos dois fatores têm contribuído para o crescimento do consumo de peças de segunda mão, na avaliação de Raquel Dommarco, gerente de localização e especialista de tendência da consultoria WGSN Latam: a era de um mundo “policrise” e a curadoria inteligente.
“De um lado, temos a crise do custo de vida, que tem pressionado o consumidor a repensar seus gastos e, em muitos casos, reduzi-los. Do outro, se encontra a crise climática, que tem gerado ansiedade e grande preocupação em relação à quantidade de resíduos que nossas compras produzem”, explica.
A segunda tendência mapeada pela consultoria mostra que a curadoria se torna cada vez mais importante em diversos segmentos, sobretudo na moda, atraindo principalmente os clientes mais jovens, da Geração Z, o que seria um “antídoto para o fast-fashion e compras por impulso”.
“Em nosso relatório-chave ‘Principais tendências para 2024 – e além’, a WGSN aponta a chamada ‘Alfaiataria de brechó’ como terreno com grande potencial de desenvolvimento. A principal característica dessa proposta é a mistura de itens novos e de segunda mão por meio de uma proposta eclética, com elementos artesanais, trazendo uma mistura peças com um toque fashion customizado”, diz Dommarco.
A especialista afirma que, embora tenha trânsito em todos os recortes geracionais, a revenda tem sido impulsionada pela Geração Z, o que acaba levando muitos varejistas tradicionais a apostar no formato para conquistar esse público – a Troc, por exemplo, foi adquirida pelo grupo Arezzo&Co em 2020, e a Peça Rara compõe o portfólio da SMZTO desde 2021. Além disso, há algumas iniciativas próprias, como o brechó online Repassa, da Renner, e a plataforma Voltei, da Pernambucanas. Marinho, da Gouvêa Malls, ainda cita a Etiqueta Única, iniciativa de second hand de luxo criada pelo Iguatemi.
“Justamente por ser considerado divertido e autêntico, o mercado de revenda é um dos canais favoritos da Geração Z, o que acaba forçando muitos varejistas tradicionais destinados ao público jovem a se adaptarem a um cenário em que produto ‘novo’ nem sempre é sinônimo de ‘melhor’”, diz Dommarco, da WGSN.
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