Acordo Mercosul-UE traz oportunidades para pequenos negócios — mas é preciso se preparar

Mercado consumidor europeu representa um grande potencial de vendas para empresas brasileiras O acordo entre os líderes do Mercosul e da União Europeia, no dia 6 de dezembro, encerrou um processo de negociação de cerca de 25 anos. “Ocorrerá uma grande mudança nas taxações entre os dois blocos, e já fala-se que em torno de 90% dos produtos não terão mais barreiras tarifárias. Ou seja, tudo que exportamos ficará mais barato para eles e tudo que importamos será mais barato para nós”, diz Diego Marconatto, professor de empresas de alto crescimento da Fundação Dom Cabral (FDC).
Segundo o Planalto, a União Europeia é o segundo principal parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio, em 2023, de aproximadamente US$ 92 bilhões. Com isso, já é possível identificar como impacto o aumento do mercado potencial para as empresas brasileiras venderem para a Europa, de acordo com o professor. “A UE tem um mercado comprador muito relevante, mas os empreendedores brasileiros precisam estar preparadas para aproveitar as oportunidades”, afirma. “Em termos de câmbio, o euro está acima de R$ 6, o que significa que é muito barato para as empresas europeias comprarem do Brasil, ainda mais com menos tarifas.”
Para o professor, os setores que tendem a se beneficiar são os que já tem uma atividade exportadora mais extensiva, e que agora terão um ganho maior. Ele cita bens de consumo, como vestuário, calçados, alimentação e bebidas. “Marcas de moda e empresas que vendem produtos típicos brasileiros, como açaí e cachaça, têm uma grande oportunidade em suas mãos.”
Ao mesmo tempo, os negócios terão que lidar com o aumento da concorrência em solo brasileiro. “O produtos europeus vendidos aqui serão mais competitivos do que hoje. Mas, em via de regra, a mão de obra lá é mais cara e o câmbio é alto, então os produtos brasileiros continuam tendo uma vantagem”, diz Marconatto.
Os detalhes de desenvolvimento do acordo — que ainda não foi assinado — serão definidos e passarão por revisão jurídica e tradução para os idiomas oficiais dos países. Não há prazo para a assinatura e entrada em vigor.
Saiba mais
O governo brasileiro divulgou um texto no dia 6, com 20 capítulos, do pilar comercial do acordo, “a fim de garantir tanto o efetivo exercício do direito de acesso à informação pública quanto a transparência da gestão pública”, diz o material. “Esses textos são publicados, no entanto, apenas para fins informativos e podem sofrer modificações adicionais em decorrência do processo de revisão legal a que estarão sujeitos, sem prejuízo dos compromissos assumidos. Os textos só serão definitivos quando o acordo for assinado.”
O texto dedica um capítulo às pequenas e médias empresas, “considerando o papel vital que desempenham na geração de empregos e renda”. Uma das iniciativas é que cada parte do acordo, tanto os países do Mercosul quanto da União Europeia, devem ter uma página na internet com informações acessíveis e relevantes relacionadas à negociação. O texto também indica que as partes deverão ter um “coordenador de PMEs” para acompanhar a evolução de perto.
“Isso é muito importante porque a pequena e média empresa têm uma necessidade de informações relacionadas a tarifas, regras jurídicas, regulamento técnico, etc. O empreendedor tem tanto foco no negócio que muitas vezes fica difícil buscar informações mais amplas, que não são relacionadas ao seu setor. Ter essas informações compiladas para serem consultadas auxilia muito”, diz Alex Nery, professor da FIA Business School.
Marconatto reforça o papel do governo brasileiro e sua importância para estimular pequenos negócios, oferecendo programas de treinamento e até financiamento. “Muitas vezes, para vender, a pequena empresa envia um produto e recebe o pagamento muitos meses depois. Ela não tem capacidade financeira para isso e precisará de financiamento”, afirma o professor, acrescentando que o governo também pode auxiliar na promoção de uma “marca Brasil”, divulgando os produtos brasileiros como sustentáveis e de qualidade.
Apesar de os detalhes terem que ser definidos, os professores concordam que as empresas brasileiras devem se preparar desde já para aproveitar as oportunidades que surgirão.
“Empresas que mostram mais preocupação com a questão da sustentabilidade, tendo uma produção mais consciente, tendem a se beneficiar mais”, diz Nery, que recomenda que os empreendedores busquem certificações internacionais que sejam atrativas para o mercado europeu.
Marconatto também recomenda buscar apoio e capacitação de programas para empresas que querem se preparar para exportar. “O idioma ainda é uma barreira, e o comércio exterior tem seus jargões e particularidades. É preciso ter pessoas capacitadas para entenderem isso. O número de pessoas que falam inglês no Brasil ainda é muito baixo. Então aprender essa língua é um ponto importante”, diz.
Também já é possível buscar oportunidades para se posicionar dentro do mercado. “O Brasil já tem câmaras de comércio com Alemanha, Itália e outros, que facilitam essa transação. O empreendedor também pode participar de feiras relacionadas à exportação“, sugere o professor da FDC.
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